O triticale, cereal obtido do cruzamento entre trigo e centeio, pode ganhar um novo destino comercial no Brasil: a indústria de alimentos. Testes realizados pela Vilma Alimentos, de Minas Gerais, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostraram que sua farinha pode substituir parcial ou totalmente a de trigo em seis dos 11 produtos avaliados.
Os resultados, divulgados pela Embrapa em 13 de outubro, ampliam as possibilidades de venda de uma cultura utilizada principalmente na alimentação animal. Para o produtor, a oportunidade está em fornecer grãos com as características exigidas pelas fábricas, criando uma alternativa à venda para ração e ao uso como forragem.
O melhor desempenho apareceu nos biscoitos. Em dois tipos, a troca integral da farinha de trigo foi possível sem perda de qualidade nas avaliações. Nos moldados, foram mantidas a expansão e características semelhantes às do produto convencional. Nos laminados doces, conhecidos como biscoitos de maisena, a substituição chegou a 30%, preservando textura, cor e sabor.
A panificação exige outro cuidado. A farinha de triticale é mais escura e tem menor força de glúten, o que limita o crescimento da massa. Nos testes relatados, a mistura em partes iguais com farinha de trigo foi indicada para pães de baixo crescimento. O resultado mostra que o mercado depende da aplicação industrial e das características do grão fornecido.
A pesquisa também avaliou o desempenho da cultura no campo. Na Fazenda Lagoa, em Carandaí, na Zona da Mata mineira, oito cultivares foram semeadas em oito hectares, em maio, com colheita em setembro de 2026, sob irrigação. O rendimento informado superou seis toneladas por hectare.
A referência apresentada pela Embrapa para o cultivo irrigado no Cerrado é de três a quatro toneladas por hectare. O desempenho experimental chama a atenção, mas precisa ser avaliado conforme a cultivar, o ambiente e o manejo. Carandaí fica na Zona da Mata, e o resultado local não representa uma produtividade garantida para outras regiões.
Segundo a Embrapa, o cereal apresenta tolerância à seca, raízes profundas e adaptação a solos ácidos e arenosos. Há potencial também para o sequeiro, embora nem todas as variedades avaliadas sejam indicadas à produção de grãos no Cerrado. A escolha da semente deve considerar a recomendação técnica para cada local.
Presente nas lavouras brasileiras desde a década de 1980, o triticale já tem uma trajetória de uso agropecuário, sobretudo no Sul. A novidade está na avaliação de sua qualidade para atender à indústria de alimentos e na busca de adaptação a outros ambientes produtivos.
Para transformar o resultado dos testes em renda, o planejamento precisa começar pelo comprador. Antes de ampliar a área, o produtor deve verificar quais variedades a indústria aceita, o padrão de qualidade, o volume procurado e o preço de entrega. Frete, irrigação, secagem e armazenagem entram na conta: são essas condições que determinarão se o novo destino comercial compensa na propriedade.