O registro comercial do primeiro fungicida 100% à base de metabólitos desenvolvido no país acaba de ser anunciado pela Bioma.
A categoria desse tipo de defensivo baseada estritamente no tipo de molécula isolada era dominada por soluções estrangeiras, mesmo com o país tendo avançado no desenvolvimento de produtos microbiológicos formulados com fungos e bactérias vivos.
A tecnologia nacional, batizada de Metabolic Protection, foi registrada para o manejo da antracnose, causada por Colletotrichum truncatum, e da mancha-alvo, provocada por Corynespora cassiicola, duas das principais doenças da soja.
O novo produto é resultado de cinco anos de pesquisas conduzidas dentro da Cogny, maior ecossistema de bioinsumos do mundo. Já a concepção científica e tecnológica foi liderada pela Orygen, empresa de Pesquisa & Desenvolvimento do grupo.
A Bioma, por sua vez, conduziu a estratégia de desenvolvimento, registro e disponibilização da solução ao mercado, prevista para começar em breve, sem data oficial anunciada até o momento.
A categoria respondeu ainda por 466 mil toneladas, ou 26% do volume total de 1,79 milhão de toneladas de produtos aplicados nas lavouras brasileiras.
Entre os biológicos, os biofungicidas foram a categoria com maior expansão em valor em 2025. O faturamento avançou 41% e atingiu R$ 1,4 bilhão, enquanto a área tratada alcançou 26 milhões de hectares, crescimento de 37% sobre o ano anterior, de acordo com o CropData, plataforma da CropLife Brasil.
Para o diretor de Pesquisa da Orygen, Artur Soares, o registro da nova tecnologia demonstra a capacidade da ciência brasileira de desenvolver tecnologias inéditas e transformá-las em soluções de alto impacto para o produtor rural.
Ele salienta que a inovação chega ao campo em um ambiente internacional pressionado por conflitos geopolíticos, oscilações cambiais e incertezas nas cadeias de abastecimento. Entre janeiro e maio de 2026, as importações brasileiras de defensivos químicos somaram US$ 4,28 bilhões, segundo o CropData, volume que reforça a exposição da agricultura nacional ao mercado externo.
O novo fungicida utiliza uma metodologia proprietária capaz de estimular a expressão de genes específicos dos microrganismos responsáveis pela produção dos compostos de interesse agronômico. Com isso, o processo resulta em um blend formado por cerca de 40 metabólitos.
Segundo a Bioma, mais de 20 deles apresentam ação direta contra os fungos, enquanto outros 17 induzem os mecanismos naturais de defesa da planta.
“A combinação de diferentes moléculas e mecanismos de ação responde a um dos principais desafios do manejo fitossanitário da soja, que é a perda gradual de eficácia de parte dos fungicidas químicos em razão da resistência desenvolvida pelos patógenos após aplicações sucessivas de produtos com mecanismos semelhantes”, diz Soares.
Segundo o pesquisador, antracnose e mancha-alvo estão entre as doenças foliares mais relevantes da cultura e podem provocar perdas de produtividade de até 40% em cultivares suscetíveis e sob condições favoráveis à disseminação dos fungos.
A pesquisa mostrou que a incorporação de moléculas de origem biológica aos programas convencionais amplia a diversidade de mecanismos utilizados contra os patógenos e contribui para reduzir a pressão de seleção sobre eles.
Ao longo dos cinco anos de pesquisa, o biofungicida foi avaliado em mais de 50 regiões produtoras do Brasil, sob diferentes condições climáticas, sistemas de manejo e níveis de pressão das doenças.
Soares pontua que os testes analisaram tanto a eficiência no controle dos patógenos quanto a integração da tecnologia aos programas já utilizados pelos agricultores.