O Brasil avança para garantir soberania na produção de imunoglobulina, utilizada no tratamento de imunodeficiências, infecções bacterianas e alguns tipos de câncer do sangue. Para alcançar a fabricação 100% nacional, a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) e a empresa Tiantan Bio firmaram, nesta sexta-feira (2), em São Paulo, acordo de cooperação para ampliar as fontes de abastecimento do medicamento, fabricado a partir do plasma humano. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, esteve presente, e assinou também a portaria que garante, pela primeira vez, incentivo federal mensal aos hemocentros de todas as unidades da federação para qualificação dos serviços.
“O SUS é mais forte quando a gente tem uma rede mais consolidada, com mais capacidade de incorporação tecnológica, quando a gente tem a Hemobrás e quando a gente consegue ter parcerias internacionais e nacionais tão potentes. Eu fico muito feliz que a gente está combinando no dia de hoje uma parceria que mostra a importância dos hemocentros para a população”, destaca o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
A parceria com a China prevê a cooperação para o registro no país de uma imunoglobulina humana de uso intravenoso, além do fornecimento do medicamento à Hemobrás e de ações de licenciamento e transferência de tecnologia. As iniciativas seguirão as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e os detalhes sobre o fornecimento e a transferência de tecnologia serão definidos em acordos específicos.
A cooperação também inclui o apoio da Tiantan Bio à Hemobrás na modernização de sistemas e processos, com ações nas áreas de transformação digital, automação e gestão inteligente. A parceria pretende ampliar a capacidade tecnológica e produtiva e contribuir para a segurança do abastecimento de hemoderivados, fortalecendo a oferta desses medicamentos para o SUS.
Aumento da capacidade produtiva de plasma para uso industrial
Além da parceria com a empresa chinesa, o Ministério da Saúde está modernizando a estrutura dos hemocentros, com melhorias nos equipamentos e nas condições de processamento e conservação do plasma. Esse componente sanguíneo contém proteínas e outras substâncias importantes para o funcionamento do organismo e é utilizado na produção de medicamentos como a imunoglobulina.
Com investimento de R$ 116 milhões, o Ministério da Saúde distribuiu 604 equipamentos para 125 serviços da hemorrede nas 27 unidades federativas. A iniciativa contemplou 132 blast freezers, utilizados para o congelamento rápido do plasma, e 472 freezers para armazenamento em baixas temperaturas, incluindo equipamentos com capacidade de operar a até -80°C. O valor também prevê recursos para monitoramento da cadeia de frio de oito estados, garantindo maior controle sobre a conservação do plasma e reforçando a segurança de todo o processo.
A conservação adequada do plasma coletado pelos hemocentros é essencial para preservar a qualidade da matéria-prima usada na produção de hemoderivados. Com a nova estrutura, a capacidade de armazenar o plasma para uso industrial deve crescer cerca de 30%, ampliando o volume disponível para a produção de medicamentos estratégicos, como imunoglobulina humana, albumina e fatores de coagulação utilizados pelo SUS.
A distribuição dos equipamentos foi iniciada em outubro de 2025 e concluída em setembro de 2026, sendo considerada uma das ações mais bem-sucedidas do Pac Saúde. Como legado permanente para o SUS, o projeto deixa uma hemorrede mais moderna e preparada para ampliar a disponibilização de plasma à Hemobrás, fortalecendo a autossuficiência nacional na produção de medicamentos derivados do sangue.
Financiamento estimula qualidade e segurança nas doações de sangue
Diferentemente dos repasses tradicionais pagos por procedimentos, o recurso de R$ 38 milhões do Ministério da Saúde será distribuído de acordo com critérios como qualidade da gestão, eficiência operacional, capacidade de envio de plasma para a Hemobrás, cobertura dos serviços, aumento da doação voluntária e redução do desperdício de hemocomponentes. A proposta busca estimular melhorias contínuas nos hemocentros, reduzir desigualdades entre os estados e fortalecer toda a cadeia do sangue no SUS.
Na prática, o recurso funcionará como um mecanismo de reconhecimento aos serviços que apresentarem melhores resultados e avanços estruturais. A expectativa é modernizar a hemorrede pública, aumentar a qualidade e a segurança transfusional, fortalecer a política nacional de plasma para produção de medicamentos para doenças do sangue e criar melhores condições para que o país aproveite o plasma coletado nos hemocentros brasileiros na fabricação de medicamentos estratégicos para o SUS.
Hemorrede
Com presença em todo o território nacional, a hemorrede brasileira reúne 2.097 serviços de hemoterapia. Desse total, 1.722 integram a rede pública e são responsáveis pela coleta, processamento, armazenamento e distribuição de sangue e hemocomponentes, formando a base que sustenta tanto as transfusões realizadas no SUS quanto a produção nacional de hemoderivados.
Biofármacos
A Hemobrás dará início à criação de um Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), com investimento de R$ 50 milhões do Novo PAC. O projeto prevê a implantação de uma estrutura de alta complexidade para pesquisa aplicada, desenvolvimento de processos e avaliação tecnológica de produtos e insumos farmacêuticos, com foco no desenvolvimento de biofármacos, medicamentos hemoderivados e biotecnológicos estratégicos para o SUS. O laboratório também permitirá a produção de lotes experimentais para estudos pré-clínicos e o apoio a validações, otimizações produtivas e estudos avançados de caracterização de biofármacos e hemoderivados.
PDP contra hemofilia
A Hemobrás e a Roche também assinarão acordo para a submissão de proposta de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) do emicizumabe, medicamento inovador utilizado na profilaxia da hemofilia A. A iniciativa complementa o portfólio da Hemobrás para o tratamento da doença, que já inclui o fator VIII recombinante produzido em Goiana por meio de PDP. O arranjo previsto contempla a absorção tecnológica pela estatal brasileira e a produção nacional do medicamento, com garantias de fornecimento a serem estabelecidas no âmbito da PDP definitiva.
Terapia genética
Outro acordo será firmado entre a Hemobrás, a FarmaVax, unidade EMBRAPII de Inovação de Fármacos e Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) e a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP) para pesquisa, desenvolvimento e inovação. O projeto, com investimento de R$ 5 milhões e vigência de 12 meses, prevê o desenvolvimento de terapia genética para hemofilias A e B utilizando sistemas avançados de entrega por nanopartículas. Do total, R$ 2,6 milhões serão aportados pela Hemobrás, R$ 1,6 milhão pela EMBRAPII e R$ 694 mil pela UFMG/FarmaVax.
Eduarda Paixão
Priscilla Miranda
Ministério da Saúde