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É preciso abrir o córrego da Prainha e ter planejamento urbano, defende engenheiro
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2 anos agoon
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Da Redação
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Registro da Prainha alagada, anos atrás: alagamento causa prejuízo a comerciantes e motoristas que precisam passar pelo região durante a chuva
Quem mora em Cuiabá sabe que um cenário não muda há décadas na Avenida Tenente Coronel Duarte, conhecida como Prainha, em Cuiabá: os alagamentos frequentes quando cai um aguaceiro na Capital – situação que se agrava quando o período de chuvas se inicia. Desde o final de 1970, o córrego que existia na região central foi coberto e a área, ocupada por moradores e comerciantes, passou a crescer exponencialmente até a atualidade. O problema crônico da região, no entanto, nunca foi solucionado. Na visão de especialistas, falta o assunto ser tratado com prioridade pela administração pública, com abertura do canal para vazão da água e execução de planejamento urbano.
“É desesperador, porque entra [água], molha tudo e a gente sempre está com cliente, né? E aí os clientes também ficam desesperados, porque começa a entrar água, estraga os móveis, que são em MDF, e o prejuízo fica aqui. Sem contar que, quando alaga, fica praticamente impossível sair, porque você fica com água até o joelho”, relatou Ana Clara, de 22 anos, ao
. Ela é funcionária de uma loja de açaí, localizada na Prainha.
O último registro de alagamento na via ocorreu nesta semana. A jovem conta que há um ponto de ônibus em frente à loja e que, quando a água toma conta da avenida e sobe para as calçadas, chega a ver pessoas subindo no banco para tentar escapar, porém, “não dá pra todo mundo subir, então o restante do pessoal sofre”.
Annie Souza/Rdnews

Ana Clara, funcionária da loja de acaí na Prainha: estabelecimento foi prejudicado pelo mais recente episódio de alagamento na avenida, nesta semana
Para o entregador de comida por aplicativo, Gabriel Gibson, de 26 anos, a maior preocupação é sua motocicleta, pois os bueiros alagam e o veículo fica estacionado bem próximo a um deles, até que precise realizar uma entrega.
“A água fica muito alta, já chegou da minha moto ficar quase submersa. Eu não sei nem como ela não caiu para o lado, porque vem a correnteza daquele jeito na descida, o bueiro ali totalmente alagado e não dá pra segurar a onda. A moto segurou ali, mas poderia ocorrer da pessoa estar trabalhando em qualquer outro lugar e a moto sair rodando por aí”, relata.
Annie Souza/Rdnews

Loja de venda de roupas esportivas, onde Laísa trabalha: em frente ao local é possível ver o bueiro, que não suporta o volume de água durante a chuva
Funcionários de uma loja de roupas esportivas disseram que, após a chuva forte no início da semana, passaram horas limpando o local. Isso porque, além da água que tomou conta de do estabelecimento, muito lixo também foi arrastado para dentro da loja, uma vez que ela fica bem em frente a um bueiro.
Para Laísa Peres, de 17 anos, que está trabalhando a cinco meses no estabelecimento, segunda-feira (04) foi a primeira experiência dela com os alagamentos na região.
“Foi horrível, começou a entrar lixo. Ainda bem que a gente tem o tampão, que reduziu a entrada dos dejetos. Mas entrou muita água, molhou todos os móveis da loja, estragou muitos produtos, que tivemos que jogar fora”, relembra.
Veja, no vídeo abaixo, registro de alagamentos na Prainha ao longo dos últimos anos:
Já virou novela
Ao
, o professor, pesquisador e engenheiro sanitarista e ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rafael Pedrollo de Paes, salienta que essas inundações acontecem, praticamente, em todos os anos, “então não é uma novidade; é recorrente”.
“Cada governo que entra investe muito dinheiro ali [na região da Prainha] e nunca é solucionado. Isso acontece em diversas ordens, agora o que é comum são as ocupações de pessoas na baixa hidrográfica cujas características sejam de alta concentração de água em pouco tempo, que é exatamente o caso do Córrego da Prainha. Ali tem um agravante que é uma região central de Cuiabá”, explicou Pedrollo.
“Não existem políticas que pensem as questões de drenagem em Cuiabá, que deem prioridade para compreender os locais críticos, as situações críticas, as bacias críticas, e como intervir em função disso”
Rafael Pedrollo, engenheiro
O pesquisador disse ainda que, antes das ocupações urbanas, o córrego que passava pela região seguia o ciclo hidrológico, onde as chuvas eram interceptadas pelas árvores, parte ia para o solo e para os rios e o restante era escoado superficialmente. Entretanto, ao tapá-lo e iniciarem construções de edificações, calçadas e asfalto, a água que ficaria retida ao córrego agora passa direto, tendo uma alteração significativa nesse ciclo.
“Quando fazemos esse tipo de ocupação, passamos a diminuir os índices de interceptação e infiltração e aumentar os índices de escoamento superficial, e são esses escoamentos superficiais que mandam a água pra frente o mais rápido possível. Acontece que isso sempre leva a água para a casa de alguém, pois sempre é mais pra baixo, e é esse mais pra baixo, onde os pontos críticos acabam sendo ocupados de alguma forma pela água, então o que acontece é uma transferência do local de ocupação”, afirmou.
Abertura do canal como possível solução
Para Pedrollo, a solução seria a criação de políticas públicas em “escala de bacia hidrográfica”, além de planejamento urbano. Ele pontua que é necessário identificar como devemos “ocupar a água” para que ela não se concentre toda, ao mesmo tempo, em um ponto específico. Uma estratégia, explica, seria ter o canal aberto – com espaço extra nas marginais – para que a água tenha vazão.
“As principais soluções quando tem alagamentos numa região muito urbanizada, com um canal no meio, é abrir o canal e mostrar que ali tem um córrego, enxergar o córrego, que tem vida. Embora possa não ter peixes, tem água e tem dinâmica, tem dinamicidade. E essa água, na época de chuva, vai precisar ser ocupada nas marginais e, considerando tudo isso, fazer estudos sobre quanto de área marginal ou canal a água precisa ocupar. E aí a gente vai para a questão do planejamento urbano: como queremos ocupar essa região do entorno do córrego?”, indagou o professor.
Reprodução

Professor da UFMT, Rafael Pedrollo de Paes
O engenheiro explica que a principal alternativa, depois que se abre um córrego, é construir corredores verdes ou parques lineares, que são “zonas de múltiplos usos” – o que não ocorreu na região.
“Quando o córrego não está ocupando aquela área, nós, humanos, e outros seres podemos utilizar, e quando o córrego precisar, o córrego vai utilizar aquela área, mas não vai causar impactos socioeconômicos. A resposta parece bem simples – na verdade a resposta é simples -, o que é complexo é fazer essas execuções. Entretanto, é o que algumas cidades mais contemporâneas têm encontrado como soluções”, disse.
Segundo o professor, o Plano Diretor de Drenagem Urbana de Cuiabá existe, mas não tem o componente de tratar 25% dele sobre drenagem urbana, ou seja, “não existem políticas que pensem as questões de drenagem em Cuiabá, que deem prioridade para compreender os locais críticos, as situações críticas, as bacias críticas, e como intervir em função disso”.
Para a funcionária de uma loja de instrumentos na Prainha, Jaqueline de Farias, de 57 anos, a falta de planejamento municipal e a reincidência do problema gera apenas um resultado: prejuízo financeiro.
“E não é em relação aos produtos, porque a gente já sabe como é, então já deixa tudo mais no alto, né? Mas a questão financeira, realmente é o que pega. Essa loja existe há mais de 20 anos e sempre passou por esse problema”, desabafa.
Annie Souza/Rdnews

Obra do BRT e planos da nova gestão
A situação na Prainha, que já é complexa, promete piorar com a chegada das obras de implantação do Ônibus de Trânsito Rápido (BRT, na sigla em inglês). Quem vê o novo modal “rasgando” as vias da Capital desde janeiro deste ano, teme pelo andamento da obra na região central. Ciente da situação, o prefeito eleito por Cuiabá, Abilio Brunini (PL), promete cobrar um plano de drenagem da região ao Consórcio BRT, responsável pela obra.
“[BRT] é um ônibus, que terá um limite de lâmina d’água em que ele pode transitar. Passou disso, inundou, o ônibus vai parar igual a todos os carros, não vai passar”
Engenheiro Rafael Pedrollo
“O Consórcio BRT precisa fazer um plano de drenagem para aquele espaço, para não comprometer a eficiência do modal naquele local. Imagino que uma obra de tamanho impacto como o BRT deve ter a previsão de drenagem de águas pluviais e estudos para isso. Se não tiver, vamos buscar uma solução”, afirmou nesta semana.
Para Pedrollo, a fala de Brunini é muito pontual ao colocar a responsabilidade apenas em cima dos ombros do consórcio construtor. “Uma coisa é uma obra que, assim como a construção de uma avenida, precisa de drenagem, uma via BRT também precisa de uma obra de drenagem e o que eles vão fazer? Não tem outra alternativa”, destaca.
Segundo o engenheiro, diante da realidade atual e considerando que o córrego está tampado, não haverá mudanças ou impactos, pois o ônibus apenas passará por uma linha delimitada – e se o limite for ultrapassado pelo volume de água, o modal irá parar até que o escoamento ocorra, assim como qualquer outro veículo que transite pela Prainha em situação de alagamento.
“É um ônibus, que terá um limite de lâmina d’água em que ele pode transitar. Passou disso, inundou, o ônibus vai parar igual a todos os carros, não vai passar. Aí quando a água terminar de passar e descer, os ônibus voltam a passar. Não tem muita diferença, são ônibus. A diferença é que eles estarão em uma pista exclusiva”, explicou.
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Registro do último alagamento na Prainha, no início desta semana
Outro lado
Questionada, a Prefeitura de Cuiabá reconhece o problema existe na região central. O Município aponta que a drenagem ao longo do Córrego da Prainha, que nasce no Bairro Consil, é uma das causas dos problemas na área. Trata-se de um sistema de drenagem antigo, com mais de 40 anos, em estado avançado de desgaste e quase inexistente em algumas partes, com manilhas corroídas.
“A água não fica represada por muito tempo, mas o sistema de drenagem não comporta o volume das chuvas, o que provoca alagamentos. Assim que a chuva cessa, a água escoa, mas a solução definitiva seria a substituição de todo o sistema de drenagem”, diz trecho da nota, sem abordar, em momento algum, os custos para a troca total do sistema de drenagem ou a razão pela qual uma solução definitiva não teve a viabilidade estudada pelo Executivo ao longo dos últimos anos.
Outro problema, segundo a Prefeitura, trata-se da falta de conscientização da população quanto ao descarte adequado de lixo, pois jogam nas vias públicas – o que acaba por entupir as bocas de lobo e agravar a situação. O Município afirmou que tem intensificado as ações de limpeza de bueiros na Avenida da Prainha, no cruzamento com a Avenida Generoso Ponce, abrangendo mais de 20 bueiros na região e arredores. Entretanto, alegou que trata-se de um serviço paliativo.
Segundo a Empresa Cuiabana de Zeladoria e Serviços Urbanos (Limpurb), cerca de seis toneladas de lixo são retiradas diariamente da região central de Cuiabá.
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