O encontro de ontem entre Donald Trump e Xi Jinping terminou com uma trégua comercial prorrogada por dois meses e muita expectativa em torno da soja. Um novo pacote de compras agrícolas, porém, não foi anunciado.
Entendo a preocupação do produtor brasileiro. Se a China voltar a comprar mais soja dos Estados Unidos, perderemos mercado? O preço vai cair?
Eu começaria por uma conta simples. Um navio que sai dos Estados Unidos para a China, em vez de sair do Brasil, não aumenta a produção mundial de soja. Tampouco diminui o consumo chinês. Muda o fornecedor.
Isso não significa que as cotações ficarão estáveis. Significa que não há motivo para tratar uma troca de origem como se fosse, por si só, uma mudança na oferta e na demanda globais.
A conta que chega ao produtor
Chicago reflete as expectativas sobre a oferta e a demanda mundiais. No Brasil, o preço recebido pelo produtor passa também pelo câmbio e pelo prêmio pago pela soja em cada porto. Frete e logística entram nessa conta.
Se os compradores chineses encontrarem mais soja americana disponível, podem negociar com mais força a soja brasileira. O prêmio no nosso porto pode recuar, mesmo que a produção e o consumo mundiais não mudem naquele momento.
Ao mesmo tempo, compras adicionais nos Estados Unidos podem sustentar os contratos negociados em Chicago.
Um movimento pode compensar, ampliar ou reduzir o outro quando a conta chega em reais ao produtor.
Por isso, eu não diria que o encontro é irrelevante para os preços. Diria algo mais preciso: a reunião, sozinha, não determina o preço da soja brasileira.
Para saber o efeito real, precisamos ver os negócios fechados daqui para a frente, os prêmios nos portos e o dólar.
Há um compromisso chinês anterior de comprar soja americana. Ontem não surgiu um volume novo capaz de redesenhar, de imediato, o comércio mundial.
O mercado, que esperava mais detalhes, voltou a olhar para as vendas efetivas e para a safra que entra nos Estados Unidos.
O que estava em jogo em Washington
A soja é importante, mas a conversa entre Trump e Xi vai muito além dela. China e Estados Unidos disputam influência econômica, tecnológica, política e militar. Os americanos querem preservar sua liderança.
Os chineses trabalham com um projeto de longo prazo para ampliar a sua.
Trump provocou uma grande mudança nas relações comerciais internacionais com tarifas e negociações conduzidas diretamente entre governos. Seu mandato vai até janeiro de 2029.
Xi olha para um horizonte mais longo. Pode fazer concessões comerciais agora, ganhar tempo em uma negociação e preservar opções para depois.
Por isso, não imagino Pequim colocando sua segurança alimentar nas mãos de um único país, sobretudo de um concorrente estratégico. A China pode comprar soja americana por preço, necessidade ou interesse diplomático.
Vai continuar, porém, buscando alternativas. O Brasil tem escala para ser uma delas e permanece um fornecedor estratégico.
A carne bovina ajuda a enxergar esse limite. Os Estados Unidos recuperaram acesso ao mercado chinês para frigoríficos, mas enfrentam oferta doméstica apertada e também precisam importar carne.
Podem vender cortes à China; daí substituir o papel do Brasil no abastecimento chinês existe uma distância grande.
São mercados e produtos diferentes, mas a lição sobre a necessidade chinesa de diversificar fornecedores é parecida.
O que ficou depois da fotografia
O encontro teve valor diplomático. Os dois líderes mantiveram a conversa aberta e adiaram decisões difíceis. Isso não resolve a disputa entre as duas potências, assim como não retira do Brasil sua capacidade de vender soja à China.
Para o produtor, a pergunta agora é menos vistosa que a fotografia dos presidentes: quanto a China comprará de cada origem e a que preço?
É nos contratos, em Chicago, no dólar e nos prêmios dos nossos portos que aparecerá a resposta. O aperto de mãos de ontem não mudou a relação mundial da soja. A disputa pela margem de quem vende continua.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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