AGRICULTURA
O agro na eleição de 2026: das promessas às escolhas
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39 minutos agoon
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Da Redação

A campanha presidencial de 2026 começou com uma certeza: independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto a partir do próximo ano, o agronegócio estará no centro da genda econômica. Os principais candidatos à Presidência reservaram espaço ao setor em seus programas de governo e, apesar das diferenças políticas e ideológicas, reconhecem problemas semelhantes no campo.
Crédito, seguro rural, endividamento, armazenagem, logística, irrigação, fertilizantes, tecnologia e abertura de mercados aparecem, com diferentes níveis de detalhamento, nas propostas apresentadas até aqui. É um reconhecimento do peso adquirido pelo setor na economia brasileira, mas também das vulnerabilidades que se tornaram mais evidentes nos últimos anos. A diferença estará nas soluções oferecidas.
Luiz Inácio Lula da Silva busca ampliar a aproximação com o agronegócio empresarial e combina propostas de financiamento, seguro rural, inovação e agregação de valor às exportações com uma agenda voltada à agricultura familiar, sustentabilidade e regularização fundiária. Flávio Bolsonaro enfatiza segurança jurídica, direito de propriedade, reorganização das dívidas, irrigação, armazenagem e redução da dependência externa de fertilizantes. Ronaldo Caiado inclui a transformação do Plano Safra em uma política plurianual, a ampliação do mercado privado de financiamento e o fortalecimento do seguro rural. Romeu Zema concentra parte relevante de sua agenda na redução de entraves regulatórios, infraestrutura, participação privada e segurança jurídica. Renan Santos associa a pauta do campo à industrialização e à agregação de valor às cadeias produtivas, além de defender mudanças na política fundiária.
São estratégias distintas para desafios que se sobrepõem. Grande parte dos programas registrados até agora apresenta diretrizes gerais, sem detalhar metas, orçamento, cronogramas ou mecanismos de execução. Ao longo do primeiro turno, sabatinas e encontros com entidades do setor deverão exigir respostas mais objetivas sobre custos, fontes de recursos e prioridades.
Alguns temas devem ocupar espaço especial nesse debate. O primeiro é o financiamento. Em um ambiente de crédito caro e produtores mais endividados, será necessário explicar como financiar a próxima etapa de expansão do agro. A discussão deve ir além do tamanho do Plano Safra e alcançar seguro rural, mercado de capitais, fundos garantidores e mecanismos privados de crédito.
O segundo será a gestão de risco. Eventos climáticos mais frequentes tornaram insuficiente tratar o seguro rural como uma questão acessória. O desafio é criar uma política previsível, capaz de combinar recursos públicos e privados e reduzir a dependência de renegociações emergenciais após cada quebra de safra.
Outro ponto inevitável será a dependência externa de insumos. A produção nacional de fertilizantes aparece em diferentes programas, sinal de que o tema deixou de ser apenas setorial e passou a envolver segurança econômica. As tensões geopolíticas recentes mostraram que produtividade também depende de cadeias de suprimento resilientes.
A agenda internacional deverá ganhar peso semelhante. O Brasil precisará ampliar mercados em um cenário global mais protecionista e fragmentado. China, Estados Unidos, União Europeia e novos destinos na Ásia, no Oriente Médio e na África estarão no radar do próximo governo. Política comercial, diplomacia, defesa sanitária, rastreabilidade e sustentabilidade formarão uma mesma estratégia de competitividade.
Também haverá uma disputa importante sobre a agenda ambiental. Sustentabilidade, regularização fundiária, Cadastro Ambiental Rural, rastreabilidade e segurança jurídica aparecem sob diferentes perspectivas nas candidaturas. O desafio será conciliar proteção ambiental e previsibilidade regulatória com exigências cada vez maiores dos mercados compradores sobre origem, carbono e rastreabilidade.
Por fim, tecnologia deverá deixar de ser uma promessa genérica. Inteligência artificial, agricultura de precisão, biotecnologia, bioinsumos e conectividade já fazem parte da transformação do campo. A política agrícola precisará considerar tanto a produção atual quanto a infraestrutura necessária ao produtor do futuro.
A outra eleição do agro
Há, porém, uma segunda dimensão da disputa: a formação do Congresso. Em outubro, o Brasil não escolherá apenas o próximo presidente. Serão renovadas todas as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e estarão em disputa 54 das 81 vagas do Senado, o equivalente a dois terços da Casa.
Para o agronegócio, essa composição terá consequências diretas. A Frente Parlamentar da Agropecuária reúne atualmente cerca de 343 deputados e senadores e se consolidou como uma das maiores bancadas temáticas do Congresso com ampla atuação.
O calendário legislativo de 2026 reforça essa influência. Seguro rural, fertilizantes, endividamento, irrigação, tributação e questões ambientais estiveram entre as prioridades levadas pela bancada às presidências da Câmara e do Senado.
A relação com essa representação será decisiva para o próximo governo. Muitas medidas anunciadas na campanha dependerão de legislação, aprovação orçamentária ou maioria parlamentar. Mesmo iniciativas conduzidas diretamente pelo Executivo estarão sujeitas à negociação de recursos e à fiscalização do Congresso.
Por isso, é possível falar em duas eleições relevantes para o agro em 2026. A primeira definirá quem ocupará o Palácio do Planalto e qual orientação conduzirá a política agrícola. A segunda estabelecerá a correlação de forças no Legislativo e o espaço disponível para aprovar medidas, distribuir recursos e sustentar programas ao longo do mandato.
Essa disputa ganha importância adicional no Senado. Com dois terços das cadeiras em jogo, a eleição poderá alterar significativamente a composição política da Casa pelos próximos oito anos, afetando pautas regulatórias, ambientais, tributárias e constitucionais.
A composição da próxima bancada ruralista também merece atenção. Seu tamanho será relevante, mas não bastará. Será necessário observar sua coesão, suas lideranças e sua capacidade de formar alianças com outras bancadas e com o governo.
Os arranjos poderão variar a partir de 2027. Um Executivo mais próximo da bancada tende a encontrar maior facilidade em algumas pautas, embora continue negociando prioridades e orçamento. Já um governo com posições diferentes em temas ambientais ou fundiários poderá enfrentar mais resistência nessas áreas, mas ainda encontrar pontos de acordo em crédito, infraestrutura, comércio exterior e inovação.
Essa dinâmica torna insuficiente dividir a relação entre o agro e a política apenas entre governo e oposição.
O que observar até outubro
Nas próximas semanas, o setor terá dois movimentos para acompanhar. O primeiro será o amadurecimento das propostas presidenciais. À medida que avançarem as sabatinas e os encontros com entidades e produtores, será possível cobrar respostas sobre custos, fontes de recursos, prazos e instrumentos de implementação.
O segundo será a formação do próximo Congresso. Mais do que contar quantos candidatos ligados ao agro serão eleitos, será importante identificar suas futuras lideranças, o peso do setor no Senado e a distribuição dessa representação entre os partidos.
O agro brasileiro não precisa apenas de manifestações de apoio durante a campanha. Precisa de previsibilidade para investir, produzir e competir. Isso envolve financiamento, continuidade das políticas, resposta aos riscos climáticos e geopolíticos e uma estratégia para ampliar a presença brasileira nos mercados internacionais.
Até outubro, portanto, será mais importante avaliar a consistência das propostas e a capacidade de articulação dos candidatos do que medir declarações de proximidade com o setor.
As urnas definirão o presidente e o Congresso com o qual ele terá de governar. Para o agro, compreender essa combinação será fundamental para antecipar os rumos da política agrícola brasileira nos próximos quatro anos.
*Rebeca Lucena é diretora de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e cofundadora da rede Women Inside Trade (WIT)
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