O brasileiro que espera uma redução dos juros recebeu uma notícia ruim. O IPCA de setembro, divulgado nesta sexta-feira (9), subiu 0,82%, acima dos 0,73% esperados pelo mercado. Em 12 meses, a inflação chegou a 4,58%, ultrapassando o limite superior de tolerância da meta.
A conta de luz e os alimentos ajudaram a puxar a alta. São despesas que dificilmente podem ser adiadas.
Quando aumentam, sobra menos dinheiro para consumir, pagar prestações e colocar as contas em ordem.
O que me preocupa é a combinação desse aperto com o custo do crédito. A inflação retira poder de compra, enquanto os juros elevados dificultam a recuperação de quem já está endividado.
E esse resultado chega em meio à disputa eleitoral, quando as dúvidas sobre a condução da economia também pesam nas decisões de investimento.
O corte dos juros pode demorar mais
A Selic está em 13,75% ao ano, depois do corte de setembro. O novo IPCA não determina, sozinho, uma alta da taxa.
Mas dificulta a defesa de uma redução mais rápida e aumenta o risco de o alívio ocorrer mais devagar do que empresas e famílias precisam.
É preciso distinguir as causas da inflação. Juros não produzem energia nem corrigem uma quebra de safra. Uma alta concentrada nesses itens pode ser temporária.
O Banco Central, porém, precisa avaliar se ela vai se espalhar para outros preços e elevar as expectativas de inflação.
Se isso acontecer, cortar os juros depressa pode comprometer o controle dos preços.
A preocupação, portanto, não se limita à possibilidade de uma nova alta da Selic. Manter o crédito caro por mais tempo já impõe um custo pesado à economia.
A dívida continua consumindo renda
Nas contas públicas, juros elevados encarecem a parcela da dívida vinculada à Selic e podem aumentar o custo dos novos empréstimos.
A inflação também corrige os títulos ligados aos índices de preços. Esse peso dificulta estabilizar a dívida e aumenta a pressão sobre o orçamento.
Nas empresas, o problema aparece no financiamento do capital de giro e na renovação dos empréstimos.
Dinheiro que poderia financiar máquinas, expansão e contratação acaba comprometido com despesas financeiras. Quem vende menos e enfrenta custos maiores tem ainda mais dificuldade para renegociar.
Para as famílias, a pressão chega pelos dois lados: as despesas essenciais aumentam, enquanto sair do cheque especial ou refinanciar uma dívida continua caro.
Nem toda prestação contratada muda com a Selic, mas o custo de buscar novo crédito pode prolongar o endividamento.
No campo, esse mecanismo também preocupa. O produtor precisa financiar o plantio antes de receber pela colheita.
Quando o crédito permanece caro, uma parcela maior da receita da safra fica comprometida com os juros, reduzindo a margem para investir e enfrentar perdas.
O dólar não resolve essa conta
Juros brasileiros elevados por mais tempo podem atrair recursos e favorecer a valorização do real, reduzindo a cotação do dólar.
Mas esse movimento não é garantido. O câmbio também responde ao cenário internacional e à confiança nas contas públicas e nas propostas dos candidatos.
Para o agro exportador, um real mais forte pode reduzir a receita em reais das vendas externas.
Alguns insumos importados podem ficar mais baratos, mas o efeito sobre a margem depende do momento das compras e da comercialização. É possível, portanto, conviver com dólar mais baixo e financiamento ainda caro.
Na minha avaliação, o resultado do IPCA reforça a necessidade de cobrar propostas econômicas consistentes nesta eleição.
Promessas de crédito barato precisam vir acompanhadas de condições para controlar a inflação e dar confiança à trajetória das contas públicas.
Quem já deve precisa de alívio.
Se os juros demorarem mais a cair, o governo continuará gastando mais para financiar sua dívida, as empresas terão menos espaço para investir e as famílias levarão mais tempo para recuperar sua renda. Essa é a consequência que merece atenção agora.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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