A perspectiva de uma nova safra recorde convive com o agravamento das dificuldades financeiras no campo. Enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta 367,1 milhões de toneladas de grãos em 2026/27, a inadimplência no crédito rural com recursos direcionados para pessoas físicas chegou a 9,69% em agosto. Para o produtor endividado, o desafio é financiar o próximo ciclo sem comprometer uma parcela da receita que já está destinada ao pagamento de obrigações anteriores.
A estimativa da Conab, divulgada em outubro, indica crescimento de 1,4% na produção em relação à temporada passada. O resultado, porém, ainda depende do desenvolvimento das lavouras. Mesmo quando se confirma, uma colheita maior não assegura melhora financeira em todas as propriedades: preços de venda, custos, perdas regionais e despesas com financiamento determinam quanto sobra da atividade.
Na série do Banco Central, a inadimplência passou de 5,23% em agosto de 2025 para 9,69% no mesmo mês deste ano, aumento de 4,46 pontos percentuais. O indicador mede a parcela do saldo da carteira com pelo menos uma prestação vencida há mais de 90 dias. Não representa o percentual de produtores inadimplentes nem abrange todas as modalidades de financiamento do agronegócio.
Pressão chega à Justiça
Outro sinal da dificuldade de pagamento aparece nas recuperações judiciais. Segundo a Serasa Experian, o agronegócio registrou 1.990 pedidos em 2025, alta de 56,4% sobre os 1.272 de 2024 e maior número da série, iniciada em 2021.
O levantamento reúne produtores rurais pessoas físicas, produtores pessoas jurídicas e empresas relacionadas à cadeia agropecuária. Dos pedidos de 2025, 853 partiram de produtores pessoas físicas e 753 de produtores pessoas jurídicas. Mato Grosso concentrou 332 solicitações, seguido por Goiás, com 296, e Paraná, com 248.
Os números mostram que a pressão ultrapassa a contratação de custeio nos bancos e alcança diferentes participantes da cadeia. São pedidos apresentados à Justiça, não necessariamente processos com planos aprovados ou dívidas já renegociadas.
A Serasa também identificou inadimplência de 8,8% entre as pessoas físicas da população rural acompanhada no primeiro trimestre de 2026. Nesse levantamento, entram dívidas vencidas há mais de 180 dias contraídas com empresas ligadas ao agronegócio. Por ter metodologia e período distintos, o índice não deve ser comparado diretamente aos 9,69% do Banco Central.
Receita futura já comprometida
O início da safra revela ainda o peso do financiamento vinculado à produção. Entre julho e agosto, médios e demais produtores empresariais contrataram R$ 65,7 bilhões, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Desse total, R$ 32,4 bilhões foram movimentados por Cédulas de Produto Rural (CPRs), praticamente metade do valor informado.
Esses títulos podem prever entrega física de produto ou liquidação financeira. Antes de assumir outra obrigação, o produtor precisa verificar quanto da colheita ou da receita futura já está comprometido. Uma mesma previsão de faturamento não pode sustentar, no planejamento, pagamentos que disputam os mesmos recursos.
Renegociar também exige essa conta. A Resolução 5.340, editada em setembro pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), abriu possibilidade de composição de determinadas dívidas não enquadradas na regulamentação anterior. O acesso depende dos requisitos de cada operação e não ocorre automaticamente.
Na propriedade, o diagnóstico começa pela reunião dos contratos, saldos atualizados, garantias e datas de vencimento. A comparação com o custo da próxima safra e com uma estimativa prudente de receita permite discutir prazos compatíveis com a atividade. Alongar uma dívida só melhora o caixa de forma duradoura quando as novas parcelas cabem no resultado esperado da produção.