A suspensão das compras europeias de carne brasileira expôs uma fragilidade que poderá definir o futuro da pecuária nacional: já não basta produzir com eficiência e segurança. Será necessário comprovar, animal por animal, a origem, o manejo sanitário, os medicamentos utilizados e as condições ambientais da propriedade.
Esse é um dos caminhos apontados pelo estudo “O futuro da cadeia produtiva da carne bovina brasileira: uma visão para 2040”, elaborado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Gado de Corte em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Publicado originalmente em 2020, o trabalho volta ao centro das discussões diante das barreiras impostas por compradores internacionais.
As projeções serão atualizadas e apresentadas em 6 de outubro, durante o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, em Chapecó, Santa Catarina. O cenário traçado pela pesquisa indica que a competitividade brasileira dependerá da combinação entre produtividade, rastreabilidade, sanidade, sustentabilidade, gestão profissional e capacidade de comprovar cada uma dessas características.
A União Europeia suspendeu, em 3 de setembro, as importações brasileiras de carne bovina e de frango, ovos, mel, pescados e outros produtos de origem animal. O bloco alegou não ter recebido garantias suficientes de que o sistema brasileiro atende às regras europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.
A medida alcança um mercado estimado em aproximadamente R$ 9,4 bilhões por ano. Somente as vendas brasileiras de carne bovina para os europeus movimentaram o equivalente a cerca de R$ 5,4 bilhões em 2025.
O problema não está limitado à detecção de resíduos na carne. A exigência europeia envolve a comprovação de que determinadas substâncias não foram utilizadas durante a criação dos animais. Para demonstrar essa conformidade, o Brasil precisa manter regras compatíveis, registros confiáveis, fiscalização e mecanismos capazes de acompanhar a produção desde a propriedade até o frigorífico.
É nesse ponto que a rastreabilidade prevista pelo estudo ganha importância. A identificação individual pode reunir dados sobre origem, movimentação, alimentação, medicamentos, vacinações, manejo e condições ambientais. Integradas aos registros dos frigoríficos e do serviço sanitário, essas informações formam uma espécie de histórico produtivo do animal.
A rastreabilidade, isoladamente, não derruba o embargo europeu. A retomada depende do reconhecimento oficial de que as normas brasileiras, os controles e as verificações atendem às exigências do bloco. Um sistema abrangente de identificação e registro, contudo, permitiria demonstrar essa conformidade com maior rapidez e reduziria o risco de que toda a cadeia fosse penalizada por falhas localizadas.
O Brasil já adotou medidas para restringir antimicrobianos classificados como importantes para a medicina humana e veterinária. O Mapa proibiu, em 2026, substâncias reservadas ao uso humano e determinados aditivos utilizados como melhoradores de desempenho. A dificuldade agora é transformar as regras em evidências verificáveis ao longo de uma cadeia formada por milhões de animais e centenas de milhares de propriedades.
A projeção da Embrapa indica que as exportações poderão absorver mais de 40% da produção brasileira de carne bovina até 2040. Quanto maior a dependência dos mercados externos, maior será a exposição a requisitos sanitários, ambientais, trabalhistas e de bem-estar animal.
A abertura de mercados depois do reconhecimento internacional do Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação mostra o potencial econômico dos avanços sanitários. Ao mesmo tempo, a suspensão europeia demonstra que uma conquista não elimina as demais exigências. O acesso passa a depender de uma cadeia contínua de controles e comprovações.
O estudo aponta que a pecuária brasileira deverá produzir mais de 13 milhões de toneladas de carne em 2040. O crescimento ocorrerá principalmente pelo aumento da produtividade nas áreas já ocupadas, e não pela abertura de novas pastagens.
Nas últimas duas décadas, a área de pastagens no País diminuiu aproximadamente 11%, enquanto a produtividade praticamente dobrou e se aproxima de cinco arrobas por hectare ao ano. A tendência é de maior participação do confinamento, da terminação intensiva a pasto e dos sistemas integrados.
Genética, nutrição, recuperação de pastagens, manejo e gestão deverão elevar a quantidade de carne produzida por hectare. A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) aparece entre as alternativas para recuperar áreas, melhorar o aproveitamento do solo e associar produção a indicadores ambientais.
A pecuária projetada para 2040 também deverá abandonar gradualmente a venda baseada apenas em peso e volume. Informações sobre qualidade da carcaça, origem, manejo, sanidade e impacto ambiental poderão diferenciar o produto e permitir acesso a compradores que pagam mais por atributos comprovados.
A inteligência artificial, os sensores e a automação deverão ampliar o acompanhamento do rebanho. Brincos eletrônicos, balanças automáticas, imagens, registros sanitários digitais e sistemas de gestão podem identificar alterações de comportamento, acompanhar o ganho de peso e registrar intervenções realizadas em cada animal.
Essas ferramentas também oferecem uma resposta à dificuldade de encontrar mão de obra especializada. O desafio será garantir que a digitalização alcance pequenos e médios pecuaristas, evitando que a rastreabilidade se transforme em uma barreira adicional para quem não dispõe de estrutura tecnológica ou assistência técnica.
A transformação exigirá investimentos públicos e privados, integração entre bancos de dados e regras claras para o uso das informações. Também dependerá da participação de produtores, frigoríficos, empresas de insumos, transportadores e autoridades sanitárias.
O embargo europeu antecipou uma discussão que o estudo projetava para as próximas décadas. Produtividade continuará sendo essencial, mas não será suficiente. Para preservar mercados e conquistar compradores de maior valor, a pecuária brasileira terá de produzir, registrar e comprovar. A fazenda que não conseguir mostrar como o animal foi criado poderá enfrentar dificuldades para acessar os mercados mais exigentes, mesmo que tenha realizado corretamente todo o trabalho.