AGRICULTURA
CNA apresenta documento com 8 propostas e prioridades para o agro na COP 31
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Da Redação
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou, nesta quinta-feira (15), o posicionamento do setor agropecuário brasileiro para a 31ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 31), que será realizada de 9 a 20 de novembro, em Antalya, na Turquia.
O documento reúne propostas e prioridades do setor para as negociações internacionais sobre mudanças climáticas. O posicionamento foi entregue durante a reunião conjunta das Comissões Nacionais de Meio Ambiente e de Irrigação da CNA, que teve a participação de representantes do Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Agricultura e da Embrapa.
O vice-presidente da CNA, Muni Lourenço, afirmou que é preciso defender os méritos da agricultura brasileira, que o produtor rural brasileiro preserva e que o agro é parte da solução para o enfrentamento das mudanças climáticas. “O documento de posicionamento da CNA reflete os anseios e pensamentos do agro brasileiro visando contribuir com as negociações da COP 31″.
Para a CNA, a COP 31 precisa marcar um avanço concreto na implementação do Acordo de Paris, que completou 10 anos em 2025. “Depois de anos de definição de metas e compromissos, o desafio é ampliar os resultados no campo, nas cidades e nos diferentes setores da economia”, diz a entidade.
Na prática, isso significa aumentar os recursos mobilizados para a agenda climática, tornar mais rápido e simples o acesso ao financiamento, ampliar a capacidade de estruturação de projetos, investir em capacitação e cooperação e estimular o comércio de tecnologias e produtos de menor pegada de carbono.
Prioridades do agro na COP 31
A CNA diz que o documento foi elaborado após ampla consulta junto aos produtores rurais, às Federações estaduais de agricultura e pecuária, sindicatos e entidades do setor.
O documento organiza o posicionamento da CNA em oito grandes eixos, que vão desde financiamento e adaptação até comércio internacional:
1. Agenda de Ação e Mapas do Caminho reconhecer e valorizar quem conserva
O que a CNA defende? Que os recursos naturais preservados dentro das propriedades rurais tenham valor econômico e que a conservação possa ser financiada, sem comprometer o potencial produtivo das áreas privadas. “É preciso, também, direcionar mais financiamento climático para ações no campo, reconhecer iniciativas que conciliem produtividade e resiliência e ampliar a produção e o uso de biocombustíveis e energias renováveis”, destaca.
Por que isso importa para os produtores?
Porque cria condições para que a conservação ambiental deixe de representar apenas um custo e possa também ser reconhecida economicamente. A CNA destaca, por exemplo, a importância da valorização da vegetação nativa conservada nas propriedades e do reconhecimento da efetividade do Código Florestal.
2. Agricultura e segurança alimentar garantir voz própria ao setor nas negociações
O que a CNA defende? A continuidade de uma agenda específica de agricultura e segurança alimentar dentro das negociações climáticas. A proposta é que as diferentes formas de produção sejam reconhecidas, evitando a adoção de uma solução única de sustentabilidade para realidades agrícolas muito distintas. Entre as propostas está fortalecer o Portal de Sharm el-Sheikh, ferramenta internacional que reúne projetos e políticas de agricultura e segurança alimentar, aproximando projetos desenvolvidos no campo de potenciais fontes de recursos. A CNA também propõe que organizações representativas dos produtores possam ser conectadas às iniciativas apresentadas na plataforma.
Por que isso importa para os produtores?
Na prática, a intenção é ampliar o acesso dos produtores a tecnologias, financiamento e ferramentas de adaptação, além de assegurar que políticas climáticas levem em consideração as condições reais da produção, especialmente nas regiões tropicais.
3. Balanço Global medir corretamente as emissões da agropecuária
O que a CNA defende? Outro ponto considerado estratégico é o chamado Global Stocktake (GST), ou Balanço Global, instrumento que avalia periodicamente os avanços dos países no cumprimento do Acordo de Paris. A CNA defende avaliações baseadas em ciência robusta, dados consistentes e inventários nacionais cada vez mais precisos. O objetivo é fazer com que as características da agricultura e da pecuária tropicais sejam corretamente consideradas nas avaliações internacionais.
Por que isso importa para os produtores?
Essa discussão tem efeito direto para o setor porque metodologias inadequadas podem levar a interpretações equivocadas sobre a pegada ambiental dos produtos brasileiros e, consequentemente, gerar exigências, rotulagens ou restrições comerciais que não correspondam à realidade da produção nacional.
4. Financiamento climático fazer o recurso chegar ao campo
O financiamento é um dos pontos centrais do posicionamento. Na COP 29, foi aprovada uma nova meta segundo a qual os países desenvolvidos devem mobilizar ao menos US$ 300 bilhões por ano até 2035. De forma mais ampla, a meta é que diferentes atores públicos e privados contribuam para mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.
O que a CNA defende? Para a CNA, entretanto, não basta aumentar os volumes anunciados. É necessário facilitar o acesso ao dinheiro, desenvolver instrumentos adequados à agropecuária, reduzir o custo do crédito, ampliar seguros climáticos e conectar projetos de mitigação e adaptação às fontes de financiamento. A questão é especialmente relevante porque o financiamento climático destinado especificamente à agricultura ainda é limitado.
Por que isso importa para os produtores?
Para quem produz, mais financiamento climático pode representar crédito em condições mais adequadas, maior oferta de seguro e recursos para investimentos como recuperação de pastagens, por exemplo, e outras tecnologias capazes de aumentar a produtividade e a resiliência da propriedade aos eventos climáticos.
5. Adaptação preparar o campo para um clima cada vez mais desafiador
A adaptação é outro pilar do documento. Secas, ondas de calor, excesso de chuvas e outros eventos extremos afetam diretamente produtividade, custos e renda no campo. Na COP 30, foram aprovados 59 indicadores internacionais de adaptação, cinco deles relacionados à agricultura e à segurança alimentar. Entre os temas avaliados estão adoção de práticas adaptativas, recuperação de áreas degradadas, produtividade e transferência de conhecimento e tecnologia.
O que a CNA defende? A CNA defende que esses indicadores respeitem as especificidades da agropecuária, sejam acompanhados por financiamento, tecnologia e capacitação e reconheçam práticas capazes de aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. A mensagem é simples: criar indicadores não basta; é preciso dar condições para que as medidas de adaptação sejam implementadas.
Por que isso importa para os produtores?
Para o produtor rural, essa agenda está diretamente relacionada à capacidade de enfrentar eventos climáticos extremos e variações do clima que afetam a produtividade e aumentam os riscos de perdas. Na prática, medidas como sistemas integrados de produção, recuperação e conservação do solo e outras práticas de manejo ajudam a reduzir a vulnerabilidade da produção e manter a produtividade mesmo diante de condições climáticas adversas.
6. Transição justa
A transição para uma economia de menor emissão de carbono precisa levar em consideração as condições econômicas, sociais e produtivas de cada país e região, segundo a CNA.
O que a CNA defende? No campo, isso significa reconhecer que a agropecuária gera emprego e renda, movimenta economias locais e é essencial para a segurança alimentar. A entidade também chama atenção para a sucessão rural e para a necessidade de criar oportunidades que permitam às novas gerações permanecer no campo.
A CNA defende ainda que a transição climática não seja utilizada como justificativa para medidas comerciais unilaterais que aumentem custos ou restrinjam mercados, sobretudo para os países em desenvolvimento.
Por que isso importa para os produtores?
Para o produtor rural, isso significa que as mudanças necessárias para reduzir emissões devem vir acompanhadas de condições para manter a renda e o sustento das famílias rurais e ampliar as oportunidades no campo. Também significa criar condições para a sucessão rural, permitindo que as novas gerações tenham perspectivas de permanecer e produzir no campo.
7. Comércio e clima evitar que regras ambientais se transformem em barreiras
Comércio internacional e mudanças climáticas estão cada vez mais conectados. Para a CNA, as políticas ambientais precisam contribuir para a redução das emissões sem se transformar em restrições injustificadas ao comércio.
O que a CNA defende? A entidade defende maior compatibilidade entre diferentes regras climáticas, mecanismos de equivalência que reconheçam as políticas adotadas por cada país e medidas que reduzam a fragmentação regulatória. Também considera necessário reconhecer a diversidade das soluções existentes na agricultura e na segurança alimentar.
Por que isso importa para os produtores?
A discussão afeta diretamente produtos como soja, carne e café. Novas exigências podem elevar custos com burocracia, rastreabilidade e certificação ou dificultar o acesso a determinados mercados. Por isso, a CNA sustenta que as regras ambientais internacionais devem considerar as diferentes condições de produção e evitar custos ou restrições desproporcionais.
8. Mitigação reconhecer e remunerar resultados obtidos no campo
O que a CNA defende? No último eixo, a CNA defende que o Programa de Trabalho de Mitigação da ONU produza resultados efetivos e mensuráveis, tenha maior conexão com financiamento e reconheça as particularidades da agropecuária e do uso da terra. A entidade também propõe maior reconhecimento dos esforços já realizados pelos produtores na adoção de práticas sustentáveis capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa e aumentar a captura e fixação de carbono no solo.
Por que isso importa para os produtores? Isso pode abrir espaço para que práticas como plantio direto e fixação biológica de nitrogênio tenham seus benefícios climáticos reconhecidos e valorizados, criando oportunidades de financiamento e remuneração e, ao mesmo tempo, contribuindo para ganhos de produtividade.
Para a CNA, o desafio na COP 31 será o de transformar metas climáticas em instrumentos que funcionem na prática. “Isso passa por crédito acessível, seguro, pesquisa, assistência técnica, transferência de tecnologia, capacitação, cooperação internacional e condições para que projetos sustentáveis consigam sair do papel”, ressalta a entidade.
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