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Brasil olha para as urnas, mas a economia mundial continua se movimentando

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Ao longo do mês de outubro, como é tradição, o FMI publica o seu relatório de outono (no hemisfério norte) do World Economic Outlook. Nesse material, além de atualizar suas projeções para o crescimento do PIB, da inflação e do comércio para as principais economias do planeta, a instituição também apresenta um conjunto de reflexões sobre as suas principais perspectivas para a economia mundial.

Embora a sociedade brasileira esteja quase que completamente focada nos resultados que podem sair das urnas, é importante darmos uma pausa e verificamos para quais direções os ventos da economia mundial estão soprando.

Pelo relatório do FMI, o grande evento macroeconômico desse ano (ao menos, até o momento) é o conjunto de conflitos no Oriente Médio, envolvendo principalmente Irã, Estados Unidos e Israel. Para os grandes preços macroeconômicos, a Guerra do Irã tem gerado três choques principais:

  • Devido às obstruções para o tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz, o mundo passou a operar com os preços em patamares bem elevados para o petróleo e seus derivados, gás natural, fertilizantes e outras matérias-primas, como para o enxofre;
  • Devido à centralidade desses produtos para diversas cadeias produtivas, um desdobramento direto foi a aceleração da inflação em diversos economias pelo mundo, com destaque para aquelas que são importadoras líquidas de energia;
  • Para evitar que esse choque inflacionário se espalhe entre os setores econômicos, a economia mundial também tem acompanhado movimentos de elevação das taxas de juros, inclusive nos Estados Unidos.

Apesar desses choques adversos, o FMI ressalta que o crescimento da economia mundial demonstrou importante resiliência. Na realidade, entre julho e outubro, a projeção do FMI para a expansão da economia mundial em 2026 passou de 3.0% para 3.1%. Certamente, as desagregações são mais interessantes, com o FMI revisando para cima as projeções de crescimento de diversas economias. O Brasil não está entre elas, mas o FMI claramente estava excessivamente otimista com os números brasileiros.

Projeção do FMI para o crescimento do PIB (% a.a.) para o mundo e para grupos de países

Fonte: Fundo Monetário Internacional (atualização de outubro de 2026)

Entre os fatores importantes para essa resiliência, merecem destaque:

  1. Um expressivo esforço para reorientar das fontes de energia, principalmente do petróleo de dos seus derivados:
    ◦ Aumento da produção de petróleo de derivados em outros países (e esse ponto retrata muito o que tem acontecido no Brasil);
    ◦ Uso dos estoques de petróleo, com grande destaque para a China;
    ◦ Substituição por outras fontes de energia, inclusive para fontes renováveis, como biocombustíveis e energia solar;
    ◦ Maior eficiência no uso das energias disponíveis.
  2. Um impressionante boom de investimentos associados à inteligência artificial:
    ◦ Nessa parte, o FMI faz uma ressalva muito relevante: embora muito expressivo, esse boom pode deixar a economia mundial exposta, pois esses investimentos estão concentrados em poucos países, poucas empresas, mobilizando um volume de recursos inédito para um único setor e concentrando a carteira de crédito de importantes instituições financeiras.

Apesar do crescimento econômico mundial ter apresentado resiliência, essa dinâmica foi bastante heterogênea entre os países:

  • De um lado, há países que são produtores e exportadores líquidos de energia (desde que não estejam nas áreas mais críticas dos conflitos, como as Guerras do Irã e da Ucrânia) e os países que são importadores líquidos;
  • De outro lado, há países com maior participação nos investimentos associados à Inteligência artificial e há outros que ainda estão distantes dessa cadeia produtiva, muitas vezes se comportando como meros consumidores passivos dessas tecnologias.

Por exemplo, a Europa está simultaneamente entre as regiões/países que têm sido mais adversamente afetados tanto pelo choque do petróleo (ela é uma importadora líquida de combustíveis), quando não está se apropriando de maneira significativa da onda de investimentos associados à IA. A Malásia é um país exportador líquido de energia e que tem se beneficiado dos investimentos ligados à IA. O Brasil é favorecido por ser um país exportador líquido de energia, mas não tem conseguido se beneficiar dos investimentos decorrentes das cadeias produtivas de IA. Por fim, a China está em uma posição justamente a posição à brasileira.

Embora o Brasil esteja concentrado nos resultados que as urnas revelarão no dia 25 de outubro, a realidade internacional voltará a participar do processo de formação do preço dos ativos brasileiros, como juros, câmbio e bolsa, assim que as eleições tiverem fim. Para alguns operadores associados ao universo agro, os movimentos das cotações observados após o 1° turno das eleições, por exemplo, que derrubaram a cotação do dólar, podem ser revertidos. Em períodos mais agitados, cautela pode não ser um mau conselho.

*Felippe Serigati é pesquisador do FGV Agro


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