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O que a casca de laranja esconde? Pesquisa revela por que ela pode valer mais do que você imagina

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Foto: Freepik

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta que a casca de laranja, um dos principais resíduos gerados pela indústria citrícola, pode ser aproveitada integralmente para a produção de alimentos, cosméticos e biocombustíveis, em um modelo inspirado no conceito de biorrefinaria e economia circular.

O estudo foi conduzido pela professora Rosana Goldberg Coelho, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp. A proposta busca extrair diferentes compostos da casca de laranja, reduzindo desperdícios e aumentando o valor agregado do resíduo.

“As nossas linhas de pesquisa são sempre voltadas ao aproveitamento sustentável dos
resíduos. Nós tentamos valorizar e agregar valor aos diferentes resíduos do agronegócio”, destaca Goldberg.

Biorrefinaria integrada

Pedro Amatuzzi/ Inova Unicamp

O primeiro componente extraído é a pectina (fibra solúvel natural presente na casca de frutas), substância amplamente utilizada pela indústria de alimentos, principalmente em geleias, bebidas e outros produtos alimentícios.

Os pesquisadores aproveitam também a hemicelulose presente na casca para produzir xilooligossacarídeos, açúcares funcionais conhecidos pelo efeito prebiótico. Esses compostos não são digeridos pelo organismo e chegam ao intestino, onde servem de alimento para bactérias benéficas presentes no intestino.

A última etapa da proposta utiliza a fração rica em celulose que permanece após as extrações anteriores. Esse material pode seguir dois caminhos: ser hidrolisado para obtenção de glicose, posteriormente fermentada para produção de etanol, ou ser destinado à geração de biogás e cogeração de energia.

“O que pensamos foi em uma biorrefinaria integrada, aproveitando todas as frações da casca de laranja”, resume Rosana Goldberg.

Aplicação em cosméticos

Segundo a pesquisadora, os xilooligossacarídeos também apresentam potencial de aplicação na indústria cosmética, especialmente em produtos hidratantes. Ela explica que esses compostos possuem alta capacidade de retenção de água, o que contribui para manter a hidratação da pele.

“Os xilooligossacarídeos podem ser utilizados em diferentes áreas, mas para cosméticos eles também tem uma boa capacidade de absorver água, então eles podem ser usados em hidratantes, eles têm esse efeito prebiótico e favorecem bactérias benéficas que a gente tem na pele”, afirma.

Economia circular

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de laranja e concentra grande parte da produção no estado de São Paulo, o que resulta em elevado volume de resíduos da indústria de suco. Hoje, boa parte dessas cascas é destinada à alimentação animal, para a pesquisadora, ampliar as possibilidades de uso pode reduzir desperdícios e gerar novas oportunidades de negócios.

Na avaliação da pesquisadora, ao invés das empresas focarem sua atuação apenas na produção de suco, elas poderiam aumentar o leque de oportunidades e investir na geração de outros produtos e ingredientes funcionais que atenderiam ao mercado.

“Temos bastante matéria disponível, a maioria é destinada para à ração animal, então, isso poderia ser valorizado, ter um produto de alto valor agregado que pode ser utilizado para um cosmético”, destaca Rosana Goldberg.

Desafio para a indústria

Embora os estudos indiquem viabilidade econômica quando todas as frações da casca são aproveitadas, a produção ainda não é feita no mercado brasileiro. Segundo Rosana Goldberg, um dos principais entraves é o custo do processo, especialmente pela necessidade de enzimas durante a etapa de hidrólise.

“É um processo de hidrólise que precisa de enzima, então tem um custo elevado. Todos os resíduos que vêm de fonte vegetal, que possuem parede celular, hemicelulose e celulose, conseguimos fazer esse processo de extração. Mas a vantagem da casca de laranja é que ela também contém pectina, que tem alto valor agregado, o que permite desenvolver uma tecnologia capaz de aproveitar as duas coisas”, explica.

Ela destaca que os prebióticos já são amplamente produzidos em países asiáticos, especialmente na China, enquanto o mercado brasileiro ainda está em desenvolvimento.

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