O agronegócio brasileiro registrou 117 pedidos de recuperação judicial a menos no segundo trimestre de 2026 do que no mesmo período do ano passado. Foram 448 solicitações entre abril e junho, queda de 20,7%, segundo a Serasa Experian. O recuo é um sinal favorável depois da escalada dos últimos anos, mas ainda não comprova uma recuperação generalizada das finanças no campo.
O levantamento acompanha produtores rurais pessoas físicas e jurídicas e empresas da cadeia agropecuária. Na comparação com o primeiro trimestre, quando houve 474 solicitações, a redução foi de 5,5%. A queda também interrompeu a sequência de aumentos registrada nos segundos trimestres de 2023, 2024 e 2025.
O indicador mede a entrada de novos pedidos na Justiça. Não informa quantas propriedades voltaram a pagar suas dívidas, quanto do endividamento foi reduzido ou quantos processos anteriores continuam em andamento. A melhora observada está, portanto, no número de produtores e empresas que recorreram ao instrumento naquele período.
Economia cresceu, mas isso não explica sozinho o resultado
Os dados de atividade mostram um ambiente de expansão no mesmo trimestre. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,5% sobre os três meses anteriores, com ajuste sazonal. A agropecuária avançou 2,8% nessa comparação e 6,8% frente ao segundo trimestre de 2025.
Esse crescimento ajuda a contextualizar o resultado, mas não permite afirmar que tenha provocado a queda das recuperações judiciais. O PIB mede a atividade econômica; a capacidade de pagar depende também dos preços recebidos, dos custos, dos juros e das dívidas acumuladas. Uma propriedade pode produzir mais e continuar com o caixa apertado.
Na avaliação divulgada pela Serasa, a redução dos pedidos pode estar relacionada à entrada de receitas para parte dos produtores, ao calendário das atividades e às renegociações com credores. São explicações possíveis, não causas comprovadas pelo levantamento.
Uma renegociação, por exemplo, pode evitar o recurso à Justiça ao distribuir os vencimentos por um prazo maior. Isso alivia a necessidade imediata de dinheiro, mas não significa que a dívida tenha sido eliminada ou que a margem da atividade tenha melhorado.
Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT) comemorou os dados da Serasa Experian:
“A queda dos pedidos de recuperação judicial é uma notícia positiva e merece ser reconhecida. Há menos produtores e empresas recorrendo à Justiça para reorganizar suas dívidas. Isso traz algum alívio, mas precisamos observar se esse movimento terá continuidade e se virá acompanhado de melhores condições de pagamento. O produtor precisa conseguir quitar seus compromissos e ter recursos para continuar produzindo”.
“O crescimento da agropecuária mostra a capacidade de resposta do campo, mas uma colheita maior nem sempre deixa mais dinheiro na propriedade. O resultado depende do preço recebido, do custo dos insumos e do financiamento. Renegociar ajuda quando os novos vencimentos acompanham a entrada da receita e as parcelas cabem na renda da atividade. Apenas adiar uma obrigação, sem ajustar essa conta, mantém a dificuldade para a safra seguinte”.
“Vejo o resultado com otimismo, sobretudo como uma oportunidade para fortalecer a negociação entre produtores e credores. Precisamos de soluções que preservem a atividade e considerem a realidade de cada propriedade. A melhora será mais consistente quando houver redução dos atrasos e condições de financiar a produção sem acumular dívidas que o negócio não consegue pagar. É esse avanço que precisamos buscar a partir de agora”, completou Rezende.
Queda foi mais forte entre produtores pessoas jurídicas
A maior contribuição para a redução veio dos produtores rurais pessoas jurídicas. Nesse grupo, as solicitações passaram de 243 para 160, queda de 34,2%. A diferença de 83 pedidos corresponde a aproximadamente 71% da redução total registrada no levantamento.
Entre os produtores pessoas físicas, os pedidos recuaram de 220 para 197, diminuição de 10,5%. Nas empresas relacionadas à cadeia agropecuária, passaram de 102 para 91, baixa de 10,8%. Portanto, houve redução nos três grupos, embora com intensidade diferente.
Mato Grosso concentrou 107 solicitações, seguido por Goiás, com 84, e São Paulo, com 72. A liderança em números absolutos não significa, isoladamente, maior risco de recuperação judicial para cada produtor: seria necessário considerar também o tamanho da população e das atividades acompanhadas em cada estado.
Para confirmar uma melhora financeira mais ampla, os próximos levantamentos precisarão ser acompanhados de outros sinais, como redução dos atrasos, recomposição das margens e capacidade de cumprir os acordos renegociados. Um trimestre favorável é relevante, mas ainda não estabelece uma tendência duradoura.
Na propriedade, o indicador mais próximo dessa melhora é o dinheiro que resta após pagar a produção e os compromissos financeiros. Antes de contratar novo crédito ou alongar dívidas, o produtor deve confrontar os vencimentos com uma estimativa prudente de receita. A renegociação ganha consistência quando a parcela cabe no resultado da atividade, sem retirar os recursos necessários à próxima safra.