AGRICULTURA

conheça sojicultor que resistiu às dificuldades e planta esperança no campo

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Antônio Lira conhece a agricultura desde a infância. Nascido em Lagoa Vermelha, no interior do Rio Grande do Sul, foi criado no sítio da família, onde aprendeu desde cedo a rotina e os desafios do trabalho no campo. Na época, a produção era feita praticamente toda à força dos braços, sem o maquinário que hoje faz parte da realidade de muitas propriedades rurais.

Rumo a Mato Grosso

O sonho de trabalhar com uma agricultura mecanizada levou Antônio a olhar para Mato Grosso. Em 1976, ele chegou ao estado e, poucos anos depois, participou dos primeiros passos da produção de soja em Lucas do Rio Verde. Em 1981, plantou uma das primeiras lavouras de soja do município, utilizando sementes trazidas do Sul e adaptadas às condições locais.

“A gente sempre esteve na atividade agrícola. Quando chegamos a Lucas do Rio Verde, entramos na cultura do arroz. Só em 1981 começamos a primeira lavoura de soja. Em poucos anos, já estávamos plantando somente a cultura”, conta.

Hoje, aos 67 anos, ele continua dedicado à atividade. A propriedade trabalha principalmente com soja e milho na segunda safra. Ao longo das décadas, ele acompanhou as transformações do setor e investiu em estrutura e tecnologia para tornar a produção mais eficiente.

Há cerca de 15 anos, adquiriu uma propriedade em Nova Guarita, onde encontrou terras com custo mais acessível. Ali, ampliou a estrutura produtiva, com lavoura, secador e armazém, além de investir em máquinas e tecnologias. “Foi quando começamos a progredir e a permanecer no agronegócio. Montamos uma lavoura, investimos em secador, armazém e máquinas apropriadas. Com mais tecnologia, conseguimos prosperar”, comenta.

Na trajetória, pedras no caminho

A trajetória, no entanto, também foi marcada por períodos difíceis. Entre os principais desafios, Antônio lembra momentos em que os preços da soja ficaram tão baixos que a produção não era suficiente para cobrir as despesas.

Um dos períodos mais delicados ocorreu em 2004, quando produtores rurais foram às estradas em um movimento que ficou conhecido como “Grito do Ipiranga”. Segundo Lira, o preço da soja não era suficiente para pagar as dívidas bancárias, e os produtores precisaram buscar alternativas para atravessar a crise. “Foi um ano muito difícil. O preço da soja não pagava as contas do banco. Conseguimos um prolongamento da dívida, mas a caminhada continua”, relembra.

Com o passar dos anos, a expansão da produção de milho e a instalação de indústrias de etanol em Mato Grosso também trouxeram novas possibilidades para os produtores. Para o produtor, o milho passou a ter um papel fundamental na sustentabilidade financeira da atividade. “O milho tem ajudado muito a gente a pagar as contas da soja. Oficialmente, estamos dependentes do milho para poder pagar em dia nossas contas e manter a safra”, pontua.

Mais recentemente, outro fator voltou a preocupar o produtor: o clima. Depois de um período de preços baixos, a situação do mercado melhorou, mas a preocupação agora está voltada para os efeitos do fenômeno El Niño e para a possibilidade de períodos de seca. “Hoje o que tira o sono é o El Niño muito forte. Não sabemos o que vai acontecer. Vemos enchentes no Sul e a previsão é de seca. Estou torcendo para que isso não aconteça e pedindo a Deus que controle esse clima para a gente plantar uma safra boa de soja no estado”, afirma.

Muito além de plantar soja

Depois de quase cinco décadas vivendo em Mato Grosso, o sojicultor afirma que a relação com a agricultura vai muito além da atividade econômica. Para ele, produzir está diretamente ligado à fé, à esperança e à paixão pela terra. “Não existe agricultor que consiga permanecer no ramo sem ter fé em Deus, porque, se não, você não joga nem a semente no chão”, diz.

É justamente essa relação com a terra que, segundo ele, mantém viva a paixão pelo campo. “Somos apaixonados pela terra. Fico transtornado de felicidade quando vejo terra boa. Mesmo que não dê dinheiro ou aconteça uma catástrofe, estamos firmes e com fé”, comenta.

Para ele, poucas atividades representam tanto a combinação entre trabalho, risco e esperança quanto a agricultura. “É a única atividade em que você joga o dinheiro no chão e fica torcendo para florescer. Temos somente aquela fé em Deus e a certeza de que vamos colher e pagar a conta”, pontua.

Conselho para a próxima geração

Aos produtores mais jovens e às novas gerações que estão chegando ao campo, Antônio deixa uma mensagem baseada justamente nos pilares que sustentaram sua própria trajetória, coragem, fé e busca constante por conhecimento. Seu filho é seu sucessor e já acompanha de perto a rotina da propriedade, dando continuidade ao trabalho construído ao longo de décadas. “Tenham coragem, muita fé em Deus e procurem tecnologias. É preciso se aprimorar cada vez mais. Com tecnologia, manejo correto e trabalho, assim chegamos lá”, aconselha.

Depois de uma vida inteira dedicada ao campo, a mensagem do agricultor também resume o propósito que, para ele, está por trás de toda a atividade agrícola, que é produzir alimento. “Produzir alimento para todos e para o mundo. Esse é o compromisso”, pontua.

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