AGRICULTURA

Jovem troca cidade pelo campo, assume negócio dos pais e leva granja de suínos ao 1º lugar em SC

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Uma pequena casa praticamente escorada para não cair, uma propriedade comprada sem contrato e uma criação de suínos que começou com apenas oito fêmeas. Foi a partir dessa estrutura que a família Babinski construiu uma trajetória que atravessou gerações no interior de Xavantina, em Santa Catarina.

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Décadas depois, a atividade que ajudou Leonir e Salete Babinski a criar os filhos ganhou escala nas mãos da segunda geração. O filho Deyvis Babinski chegou a deixar o campo e tentar a vida na cidade, mas decidiu voltar. Assumiu os negócios da família, investiu na criação de leitões em fase de creche e levou a propriedade ao primeiro lugar em desempenho na região.

Hoje, a granja trabalha com cerca de 6 mil suínos e a família já fala em uma nova expansão.“Foi a melhor decisão da minha vida ter voltado para cá”, resume Deyvis.

Uma propriedade comprada “no bigode”

A história começou muito antes da atual estrutura da granja. Filho de agricultores, Leonir cresceu trabalhando com a família. Estudou até a quarta série e ainda criança passou a dividir o tempo com as tarefas da propriedade.

“Na aula aprendi muito pouco. O que eu aprendi talvez foi com meus irmãos. Depois eles estudavam mais e eu parei na quarta série. Meu pai disse que eu tinha que carpir para ganhar o pão de cada dia”, relembra.

A família cultivava milho e já mantinha alguns suínos. A vida de Leonir, porém, mudou depois que o pai negociou a compra da propriedade onde ele vive atualmente e morreu poucos dias depois.

Sem saber exatamente como seguir com o compromisso assumido pelo pai, Leonir recebeu uma proposta do antigo proprietário. O acordo original previa o pagamento de 3,5 mil sacas de milho em três anos. O prazo foi ampliado para cinco anos, mas o valor passou para 4,5 mil sacas.

Não havia banco, financiamento ou sequer um contrato formal. “Ele disse: ‘Vai valer é o bigode’. O dele, porque eu nem barba direito tinha”, conta Leonir.

O milho produzido era entregue a um vizinho, que fazia o pagamento ao proprietário da terra. Os recibos eram escritos à mão. Depois do casamento com Salete, o casal se mudou para a propriedade em 1985.

“A gente tinha uma casinha praticamente escorada para não cair. Entrava vento para tudo quanto era lado no inverno”, lembra Leonir.

A dívida da terra só seria quitada em 1990.

Oito fêmeas e o começo de uma nova atividade

Com a propriedade paga, a família começou a olhar com mais atenção para a suinocultura. No início dos anos 1990, Leonir construiu uma pequena instalação de aproximadamente 10 metros por 7 metros. Para levantar a estrutura, precisou vender milho. Depois surgiu outro problema: faltavam recursos para comprar os animais. A solução veio aos poucos.

Leonir engordou suínos para um vizinho e recebeu uma leitoa como pagamento. Outro produtor, que precisava de água, propôs uma troca: acesso ao recurso hídrico por um macho e uma fêmea. Com a aquisição de outros animais, a criação começou com oito fêmeas. “A suinocultura foi a maior vitória”, afirma.

Naquele momento, cada fonte de renda fazia diferença. Além da produção de milho, a família cultivava feijão para consumo e mantinha vacas leiteiras. “Dizer que passei fome, não sei. Mas a gente produzia o milho para pagar a terra e tinha que plantar uns grãos de feijão para comer. E tinha que pagar a luz”, recorda Leonir.

Ele também trabalhou por cerca de dez anos com produção de leite para complementar a renda. Mas foi nos suínos que a família encontrou a atividade que mudaria definitivamente sua situação.

“Começamos com suínos em 92, porque primeiro nós tínhamos que trabalhar para pagar a terra. Era bem mais difícil. Não tinha financiamento”, diz.

Salete acompanhou toda a transformação. Também criada no campo, ela trabalhou ao lado do marido enquanto os filhos cresciam. Com o passar dos anos, parte deles estudou e buscou outras atividades, mas os dois filhos homens permaneceram ligados ao agronegócio.

“A suinocultura contribuiu muito para o que nós temos hoje. Nós ganhamos com a suinocultura e foi muito gratificante”, conta.

Para ela, a dimensão da conquista fica mais clara quando compara a atual propriedade com as condições enfrentadas no início. “Foi bastante difícil porque a gente começou aos poucos, não tinha muita condição. A gente foi começando de pouquinho, foi aumentando até chegar onde nós temos hoje.”

A atividade também ajudou o casal a oferecer aos filhos oportunidades que eles próprios não tiveram. “No começo foi mais difícil dar estudo. A gente tinha pouca condição, mas foi se ajeitando, levando, e agradece a Deus que deu tudo certo.”

O filho que tentou deixar o campo

Deyvis cresceu acompanhando essa rotina. Desde criança ajudava a família na produção de suínos e de grãos. Apesar da ligação com a propriedade, em determinado momento decidiu experimentar uma vida diferente.

Depois de se casar, em 2012, mudou-se para a região de Curitiba. A experiência, porém, não correspondeu às expectativas. “A cidade não foi o que eu esperava, tanto financeiramente, com os trabalhos que tinha lá, quanto pela vida. Eu sempre fui acostumado no interior, então a rotina era totalmente diferente.”

O plano inicial era retornar para ampliar a atividade que a família já desenvolvia com matrizes. Nem tudo aconteceu como planejado. No caminho, apareceu a oportunidade de trabalhar com creche de leitões. Deyvis aceitou.

“Eu não esperava que uma decisão que tomei no passado tivesse sido tão assertiva. A ideia quando voltei não era essa, era continuar com matrizes. E hoje eu vejo que a melhor decisão que tomei foi investir em creche. É a coisa que eu mais gosto de fazer hoje.”

A primeira chegada dos leitões ‘foi um caos’

A mudança de sistema também trouxe dificuldades. Deyvis admite que a primeira experiência recebendo os animais ficou longe do funcionamento atual da granja.

“A primeira vez que eu recebi os leitões foi um caos. Nunca tinha tido essa experiência, era totalmente diferente. Não sabia acompanhar uma descarga, contagem. Foi um dia bem tenso.”

Com o tempo, vieram experiência, padronização dos processos e treinamento da equipe. “Hoje em dia tudo é mais fácil. Como já tenho muita noção, eu treino os meus funcionários que me ajudam e tudo sai perfeitamente.”

Um profissional que acompanha a propriedade desde 2022 relata ter observado essa transformação. Segundo ele, Deyvis demonstrava desde o início a intenção de melhorar os indicadores da granja, mas ainda enfrentava dificuldades relacionadas ao novo sistema de produção.

Quando voltou a atender a propriedade em 2024, encontrou um produtor mais experiente e com objetivos definidos. “Eu já encontrei um cara maduro, que tinha o pé no chão sobre o que gostaria, qual era o futuro da granja e dele na suinocultura. Ele tinha uma dedicação, uma vontade de fazer acontecer e de ser um dos melhores.”

Do segundo lugar ao prêmio mais esperado

Deyvis assumiu os negócios em 2016. No ano seguinte, começou a operar o primeiro galpão destinado à nova atividade.

Os resultados começaram a aparecer rapidamente. Em 2018, a propriedade conquistou o segundo lugar em conversão alimentar. Com a ampliação da estrutura, surgiu um segundo galpão e também a necessidade de profissionalizar a gestão e a liderança da equipe.

Em 2024, veio novamente o segundo lugar. Até que, em 2025, a família alcançou a colocação que perseguia havia anos. “O tão sonhado primeiro lugar”, diz Deyvis.

A conquista também é lembrada pela esposa. “Ele trabalhou tanto que esse ano a gente foi premiado como a melhor granja de creche da região. Ele estava esperando esse prêmio há muito tempo, trabalhou muito e conseguiu.”

Para ela, o resultado serviu também como combustível para os próximos passos. “Isso dá uma motivação para ele querer continuar.”

De oito matrizes para 6 mil suínos

A escala atual ajuda a dimensionar a transformação iniciada por Leonir e Salete. A granja conta hoje com cerca de 6 mil suínos e uma equipe de colaboradores. Para quem acompanha tecnicamente a propriedade, a profissionalização do trabalho permitiu melhorar os resultados e também proporcionar maior qualidade de vida às pessoas envolvidas na operação.

Mas Deyvis não pretende parar na estrutura atual.O projeto é ampliar significativamente a produção. “Eu quero ter 12 barracões, quero ter 12 galpões”, relata, segundo o profissional que acompanha a propriedade.

Mais do que aumentar a quantidade de animais, a intenção é continuar na atividade que trouxe Deyvis de volta ao lugar onde cresceu.

A sucessão iniciada com a volta de Deyvis pode não terminar nele. Agora, a filha pequena começa a repetir parte da experiência que o próprio pai teve na infância: acompanhar de perto a rotina da propriedade. “Ela adora animais, gosta de ir lá na granja com ele”, conta a mãe.

A família ainda não sabe se a menina seguirá profissionalmente os mesmos passos, mas a relação com o campo já está sendo construída. “Se a gente for levando ela para conhecer, ela vai pegar gosto por isso e vai fazer a sucessão familiar dele. Foi assim que o Deyvis fez, porque via o pai e a mãe trabalhando com isso, gostou e continuou.”

Para Deyvis, a volta ao interior trouxe algo que vai além dos resultados da granja. “Agora que eu tenho uma filha pequena, ver ela crescer do lado dos avós é uma alegria.”

“Hoje a gente está colhendo tudo que plantou”

Para Leonir, que começou trabalhando para pagar uma terra negociada pelo pai e construiu a primeira instalação sem recursos sequer para comprar os animais, acompanhar a continuidade do negócio pelo filho dá outro significado às dificuldades enfrentadas no passado.

“Hoje eu me sinto muito feliz porque a gente trabalhou, sofreu, mas hoje está colhendo tudo que plantou.”

A trajetória que começou com milho usado como moeda, uma casa precária e oito matrizes hoje se traduz em milhares de animais, uma nova geração à frente do negócio e planos para ampliar a produção.

Leonir não fala em deixar o campo. “Tenho orgulho mesmo de ter construído tudo isso, vivido ali e pretendo viver até morrer aí, trabalhando ainda.”

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