AGRICULTURA

Após investir na suinocultura para manter filhos no campo, casal amplia renda criando milhares de leitões

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Foto: Canal Rural/Interligados

Quando a família Vani decidiu voltar a investir na suinocultura, o objetivo não era apenas aumentar a renda da propriedade rural em Seara, no Oeste de Santa Catarina. Por trás dos novos galpões estava um plano maior: criar condições para que os filhos permanecessem no campo e a história construída pelas gerações anteriores pudesse continuar.

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Hoje, a propriedade conta com dois galpões de creche, cada um com capacidade para 3 mil leitões. São 6 mil animais alojados, uma estrutura que a família considera uma conquista e que ajudou a reorganizar o negócio e dividir responsabilidades entre as gerações.

“O meu sonho era que, com a creche, nós tivéssemos um dinheirinho a mais para segurar eles em casa, para a família viver bem e continuar com a nossa propriedade”, conta o produtor Lauri Vani.

Da pequena criação aos 6 mil leitões

A relação da família com os suínos atravessa gerações. A atividade começou de maneira pequena, quando a propriedade mantinha poucas matrizes, e chegou posteriormente a cerca de 30 fêmeas. Houve, porém, um período de interrupção após a morte dos pais de Lauri.

A família retomou a atividade anos depois, desta vez trabalhando com leitões na fase de creche. A mudança também respondeu às limitações da própria propriedade: como o terreno não favorecia a expansão baseada somente na produção de grãos, era necessário encontrar outra fonte de renda.

“Foi uma oportunidade de negócio para nós, para ter uma renda maior”, recorda Lauri.

A decisão exigiu investimento e veio acompanhada de incertezas. Na época, os filhos ainda eram jovens e não havia garantia de que permaneceriam na propriedade.

Para Edi Vani, a família precisava investir para impedir que a atividade simplesmente parasse com o passar dos anos.

“Foi um momento apreensivo, porque vem toda a questão da sucessão familiar, se os filhos ainda pequenos iam ficar ou não aqui na propriedade. E vem aquela preocupação se a gente vai conseguir pagar, porque é um investimento alto. Mas também é uma emoção, porque a gente está dando continuidade à propriedade”, afirma.

O investimento acabou cumprindo justamente um dos objetivos que motivaram a decisão.

“O sonho era segurar toda a família reunida”, resume Lauri.

Quando ninguém sabia separar os leitões

O início da nova fase, porém, exigiu aprendizado. Rafael Vani guarda na memória o primeiro lote recebido pela família. Sem experiência com o sistema de creche, todos precisaram aprender juntos a classificar e manejar os animais.

“Todo mundo se reuniu para tentar fazer acontecer. Na primeira vez separando os leitões, um olhava para o outro e não sabia o que fazer. Não sabia se era leitão grande, se era pequeno. Todo mundo estava perdido, porque era uma coisa totalmente nova”, relembra.

Com o passar dos anos, aquela insegurança deu lugar a uma rotina organizada.

Nos dias de carregamento, o trabalho pode começar às 4h da manhã e seguir até o meio-dia. Já nos dias de alojamento, os animais chegam por volta das 6h ou 6h30 e dão início a um processo que pode ocupar praticamente todo o dia.

Os leitões precisam ser separados por características como tamanho e condição, com atenção especial aos menores. Para Rafael, é um dos momentos decisivos para o desempenho futuro.

“É a partir dali que sai o lote bom ou ruim. A classificação deles e tudo. Então, esse dia é puxado, bem puxadinho”, conta.

Disciplina virou diferencial dentro da granja

Na propriedade, os leitões chegam provenientes da Unidade Produtora de Leitões (UPL) e permanecem na creche até seguirem para a fase de terminação.

O trabalho envolve classificação dos animais, controle de temperatura, acompanhamento sanitário, estímulo ao consumo e observação constante das baias.

Para Perlin Meirelles Nunes, extensionista responsável pela assistência à granja, a palavra que melhor explica os resultados da família é disciplina.

“Os bons resultados que possui a família Vani são a disciplina e a responsabilidade com que eles trabalham com os animais. Na suinocultura, quanto mais você cuida, o resultado vem”, afirma.

O acompanhamento é diário. Segundo o extensionista, a rapidez para perceber um problema e tomar uma decisão pode interferir diretamente no desempenho dos animais.

“A disciplina leva ao detalhe de cada ação que eles fazem dentro da granja. Então, um cuidado maior, um estímulo melhor, uma ação mais rápida numa decisão. Isso faz com que o desenvolvimento, o desempenho e o resultado venham rapidamente”, explica.

A assistência técnica também participa desse processo, com orientações e treinamentos. Entre as iniciativas citadas está o Círculo de Melhoria Contínua (CMC), programa utilizado para identificar problemas nas granjas, reunir dados, buscar soluções e compartilhar os resultados obtidos com outros produtores.

Com o crescimento das atividades, a divisão de funções ocorreu de maneira natural.

O filho mais velho, Alexandro, ficou mais ligado à bovinocultura leiteira. Rafael assumiu maior responsabilidade pela suinocultura e também auxilia nas lavouras. Apesar da divisão, os integrantes da família se ajudam quando necessário.

“Eu sou da parte dos suínos, ele é da parte do bovino de leite. Claro que, quando algum precisa, nós sempre ajudamos”, conta Rafael.

Para ele, a relação com o irmão ultrapassa a parceria profissional.

“Nós dizemos que somos quase melhores amigos. Conversamos sempre, contamos todas as coisas, não tem quase segredo entre eu e ele”, afirma.

A chegada dos filhos à gestão também mudou a forma como as decisões são tomadas. Se antes Lauri e Edi concentravam as escolhas, atualmente os sucessores participam diretamente do planejamento.

“Ninguém mais decide nada sozinho. É entre toda a família. Nós decidimos tudo juntos e temos que nos respeitar”, diz Lauri.

Sucessão não significa simplesmente entregar a propriedade

Para Rafael, assumir responsabilidades também exigiu entender que sucessão familiar é um processo, e não uma troca repentina de comando.

Ele define a sucessão como uma “passagem do bastão” dos pais para os filhos, permitindo que a nova geração comece a administrar a propriedade com suas próprias ideias, mas sem romper com a experiência acumulada pelos mais velhos.

O tema foi trabalhado por ele no projeto Jovem SuperAgro. “Na teoria é fácil passar o bastão, mas não é tão simples. Requer tempo. Não é que, quando o pai passa o bastão para o filho, ele acabou, parou de trabalhar. Ele continua ajudando, auxiliando, dando conselhos”, afirma Rafael.

O treinamento também contribuiu, segundo ele, para desenvolver habilidades de liderança e divisão de funções.

Para o futuro, Rafael já pensa na próxima etapa. “O que eu mais penso para o meu futuro na suinocultura seria a expansão. Expansão e bons resultados, sempre melhorando, porque sempre tem alguma coisa para a gente melhorar”, diz.

“O maior legado é a família e a união”

A sucessão ganhou um significado ainda mais concreto com o passar dos anos. Os filhos permaneceram, um deles se casou e a família cresceu com a chegada das netas.

Para Edi, essa talvez seja a maior medida do resultado obtido pela propriedade.

“Eu acho que o maior legado que a nossa família construiu é a união. A gente investiu aqui, então os filhos ficaram conosco. O filho casou, a nora veio para cá também e fica a família trabalhando junto”, afirma.

Rafael compartilha a mesma percepção.

“A lição que meus pais mais me deixaram e que mais me marcou é a união e a família. Somos uma propriedade familiar, sempre ficamos juntos. Ninguém nunca saiu da propriedade; pelo contrário, veio mais gente da família para cá”, conta.

Para uma família que começou com uma estrutura muito menor e hoje mantém diferentes atividades produtivas, os galpões e os 6 mil leitões representam uma conquista importante. Mas Edi mede o patrimônio construído de outra maneira.

“Quando eu olho para a nossa propriedade, fico muito feliz. Me orgulho porque nós conseguimos juntos. Eu me orgulho muito do que nós temos aqui e da família que nós temos.”

E, para a nova geração, continuar produzindo mantém vivo o propósito iniciado pelos pais.

“Para mim é uma emoção poder produzir alimento para outras pessoas, para que as pessoas da cidade possam se alimentar”, resume Rafael.

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