AGRICULTURA
Etanol hidratado ganha força em agosto com recomposição dos estoques e oferta restrita
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2 horas agoon
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Da Redação

A consultoria Safras & Mercado observou que o mercado físico de etanol hidratado finalizou a primeira metade de agosto com um forte movimento de alta nos preços no Centro-Sul, com uma direção clara a máxima dos R$ 3,00 o litro.
A leitura faz sentido e, principalmente, ajuda a separar o movimento recente de alta do hidratado de uma eventual mudança estrutural de fundamentos. O que aparece no seu relato é um mercado que saiu de uma situação de excesso de cautela das distribuidoras para uma disputa pontual por disponibilidade, enquanto a oferta das usinas ainda não conseguiu responder plenamente.
O ponto mais importante é que essa firmeza não significa, necessariamente, que o mercado entrou em um ciclo sustentado de alta. O movimento começou pelo lado da demanda e da recomposição de estoques. Com as usinas direcionando maior parcela do mix para o açúcar diante da valorização da commodity, a disponibilidade de hidratado ficou mais restrita. Ao mesmo tempo, as distribuidoras vinham operando com estoques curtos e compras muito próximas da necessidade imediata, em parte pelo receio de que os preços continuassem recuando.
Quando a Raízen Distribuidora aumentou o apetite, acabou funcionando como gatilho para um mercado que já estava fisicamente mais apertado. A partir daí, as demais distribuidoras perceberam a necessidade de recomposição praticamente ao mesmo tempo, mas encontraram um mercado diferente daquele que imaginavam encontrar poucos dias antes: menor oferta, usinas mais firmes e preços em alta.
Aumento da demanda
A retomada do calendário escolar é relevante nesse processo: primeiro nas redes estaduais e posteriormente nas particulares, tende a aumentar a circulação de veículos e, consequentemente, o consumo de combustíveis. Não é possível atribuir toda a aceleração da demanda a esse fator, mas ele ajuda a explicar por que a necessidade de produto apareceu justamente no final de julho, quando o mercado ainda estava trabalhando com estoques relativamente enxutos.
O resultado foi uma espécie de corrida pela reposição: quem havia se antecipado conseguiu comprar, enquanto quem permaneceu fora do mercado acabou tendo de pagar mais caro. Do lado da oferta, entretanto, existe uma particularidade importante. O levantamento com 15 usinas indica que a moagem está atrasada, apesar da maior concentração do mix no açúcar.
O ATR mais baixo, associado às chuvas recentes, também limita a capacidade de maximização da produção de açúcar. Isso cria uma situação interessante: as usinas querem privilegiar o açúcar, mas a menor qualidade industrial da cana impede que esse direcionamento seja levado ao limite. Como consequência, uma parcela maior de matéria-prima acaba resultando em etanol. Esse produto adicional, porém, ainda não foi suficiente para produzir a pressão de estocagem que normalmente seria esperada para julho e agosto.
Esse é provavelmente o ponto central da leitura para as próximas semanas. O mercado está firme porque a demanda chegou antes de a oferta conseguir responder plenamente. Enquanto as distribuidoras ainda estiverem recompondo estoques, as usinas terão maior poder de barganha e a tendência é de manutenção da sustentação, com possibilidade de novas altas.
A possibilidade de o hidratado se aproximar ou até testar a região de R$ 3,00 por litro dependerá menos de uma mudança estrutural do mercado e mais da intensidade e da duração dessa recomposição de estoques. Existe, contudo, um limite bastante claro para esse movimento. À medida que as distribuidoras conseguirem recompor estoques em níveis considerados confortáveis, a urgência de compra diminui. Paralelamente, a moagem deverá ganhar ritmo, desde que as condições climáticas permitam, aumentando gradualmente a disponibilidade física de etanol.
Nesse momento, a relação de forças tende a se inverter: as distribuidoras deixam de disputar produto e as usinas passam a disputar espaço para vender. É justamente aí que pode começar a “corrida dos ratos”, com maior pressão comercial e consequente correção dos preços. O line-up de exportação de agosto acrescenta uma variável importante. Parte das usinas está comprometida com esses embarques, o que reduz temporariamente a disponibilidade destinada ao mercado doméstico.
Os volumes de embarque e desembarque de etanol são semanalmente atualizados pela Safras & Mercado em sua plataforma. Isso ajuda a sustentar os preços no curto prazo, mas não elimina o problema de fundo: existe uma quantidade expressiva de cana ainda disponível para processamento. A estimativa de aproximadamente 650 milhões de toneladas para a safra reforça a percepção de que a oferta potencial de matéria-prima continua elevada.
Se o clima permitir, a moagem deverá avançar até dezembro, e não está descartada a necessidade de algumas unidades continuarem processando cana até o final da temporada. Por isso, a janela de maior atenção parece estar mais à frente. Julho e agosto não produziram a pressão de estocagem que o mercado esperava, mas isso não significa que ela desapareceu. Ela pode simplesmente ter sido deslocada para setembro e outubro.
Quanto mais tempo o mercado permanecer firme, maior tende a ser o incentivo para as usinas acelerarem a moagem e colocarem produto no mercado. Se essa oferta adicional encontrar distribuidoras já abastecidas, a correção poderá ser rápida.
A leitura, portanto, é de um mercado firme no curto prazo, mas com fundamentos que apontam para uma possível reversão mais adiante. Nos próximos 20 a 30 dias, a combinação de estoques ainda baixos nas distribuidoras, retomada do consumo, menor disponibilidade imediata das usinas, compromissos de exportação e atraso da moagem tende a manter o hidratado sustentado.
A partir da recomposição dos estoques e da aceleração da moagem, entretanto, o mercado deverá começar a olhar novamente para a oferta. Se a cana efetivamente aparecer e as usinas conseguirem elevar o ritmo de processamento, a mesma força que hoje sustenta os preços pode se transformar em pressão vendedora nos meses seguintes.
O mercado pode, portanto, subir enquanto as distribuidoras estiverem enchendo a barriga; depois, quando estiverem abastecidas e as usinas estiverem moendo forte, a lógica tende a mudar completamente.
A série histórica de Ribeirão Preto mostra que o mercado de etanol hidratado atravessou julho de 2026 em uma nova etapa de deterioração, com o preço atingindo R$ 2,6778/litro, queda de 4,76% frente a junho e de 15,79% em relação a julho de 2025. Mais relevante do que a queda mensal, entretanto, é o fato de o hidratado estar sendo negociado quase 20% abaixo da média dos últimos cinco anos para o mês.
A média histórica de julho está em R$ 3,3339/litro, enquanto o preço observado em 2026 ficou em R$ 2,6778/litro, representando um desconto de 19,68%. O comportamento da série evidencia que o mercado entrou no segundo semestre sob forte pressão de oferta, enquanto a demanda ainda não apresenta força suficiente para absorver integralmente o crescimento da produção.
Ao mesmo tempo, a projeção de R$ 2,65/litro para agosto sugere uma possível desaceleração do movimento de baixa, embora ainda não existam elementos suficientes para caracterizar uma reversão estrutural da tendência.
A pressão se intensificou em maio, quando o preço chegou a R$ 2,81/litro, praticamente se manteve nesse nível em junho, com R$ 2,8118/litro, e voltou a cair em julho para R$ 2,6778/litro. A sequência demonstra que julho não representa o início da fraqueza do hidratado, mas o aprofundamento de um movimento de baixa construído ao longo do segundo trimestre, à medida que o avanço da safra ampliou a disponibilidade de produto e a demanda passou a apresentar menor capacidade de absorção.
O principal fundamento por trás desse comportamento está no aumento da disponibilidade de etanol ao longo da safra 2026/27. O avanço da moagem no Centro-Sul ampliou a oferta de matéria-prima e, consequentemente, a capacidade de produção de etanol, justamente em um período no qual a demanda não apresentou crescimento proporcional.
Quando a oferta cresce acompanhada pela demanda, o mercado consegue absorver volumes adicionais sem grandes alterações nos preços. Entretanto, quando a produção aumenta mais rapidamente do que o consumo, surge um excedente que precisa ser armazenado ou comercializado a preços menores. É esse desequilíbrio que ajuda a explicar a pressão observada durante julho, não necessariamente pela ausência de demanda pelo etanol, mas pela velocidade com que a oferta passou a crescer em relação à capacidade de absorção do mercado.
Essa dinâmica ganha importância quando se considera a necessidade de gerenciamento dos estoques. Enquanto as usinas possuem espaço físico e capacidade financeira para manter o produto armazenado, existe a possibilidade de aguardar condições mais favoráveis de mercado. Porém, quando a disponibilidade cresce simultaneamente em diferentes unidades produtoras, o espaço nos tanques passa a adquirir maior valor econômico.
A decisão deixa de envolver apenas a expectativa de preços futuros e passa a considerar também o custo financeiro e operacional de carregar o produto. Em determinadas situações, a necessidade de transformar estoque em caixa pode estimular vendas mais agressivas, aumentando a disponibilidade no mercado spot e criando uma pressão adicional sobre as cotações. Dessa forma, preços baixos podem ser simultaneamente consequência e mecanismo de ajuste do excesso de oferta.
No lado da demanda, o comportamento mais cauteloso das distribuidoras também contribui para manter o mercado pressionado. Em um ambiente de ampla disponibilidade, compras mais próximas da necessidade efetiva reduzem o risco de carregamento de estoques elevados e diminuem a urgência para aquisição de novos volumes. A possibilidade de postergar compras aumenta o poder de barganha dos compradores e limita a capacidade das usinas de sustentar preços mais elevados.
Essa característica se torna ainda mais relevante quando ocorre simultaneamente a uma fase de forte produção e a uma sazonalidade menos favorável ao consumo. O período de férias escolares tende a limitar o crescimento da demanda por combustíveis e, em um mercado já pressionado pelo aumento da oferta, qualquer desaceleração adicional do consumo contribui para ampliar o excedente disponível.
Apesar desse cenário, os níveis atuais de preços começam a criar mecanismos capazes de limitar a continuidade da queda. Quanto menor o preço do hidratado, maior tende a ser sua competitividade frente à gasolina, aumentando o incentivo econômico ao consumo. A redução registrada na série de Ribeirão Preto representa, portanto, um fator negativo para a remuneração das usinas, mas potencialmente positivo para a demanda. O problema está na defasagem existente entre a queda do preço na origem e sua transmissão ao consumidor final.
É necessário que a redução percorra as diferentes etapas da cadeia para que o consumidor perceba uma mudança suficientemente significativa na relação de preços entre etanol e gasolina. Por essa razão, o mercado de origem pode continuar pressionado mesmo quando a competitividade do hidratado começa a melhorar.
Outro elemento importante para o segundo semestre é a elevação da mistura de anidro na gasolina de 30% para 32%. A mudança cria uma demanda estrutural adicional por anidro e altera a dinâmica do complexo sucroenergético. Entretanto, o efeito sobre o hidratado ocorre principalmente de forma indireta, por meio das decisões de produção das usinas e da arbitragem entre açúcar, anidro e hidratado.
Com maior demanda por anidro, a remuneração relativa do etanol passa a ganhar importância na definição do mix industrial, podendo estimular maior direcionamento de matéria-prima para a produção de biocombustíveis e reduzir, dependendo das condições de mercado, a disponibilidade potencial de açúcar. Entretanto, a elevação da mistura não representa automaticamente uma redução equivalente da oferta de hidratado, uma vez que o impacto dependerá das decisões industriais e das relações de preços entre os diferentes produtos.
Nesse contexto, o mix entre açúcar e etanol tende a ganhar importância crescente. Com o hidratado negociado em níveis próximos de R$ 2,68/litro, as usinas passam a comparar sua remuneração com a alternativa de produção de açúcar e com a produção de anidro, cuja demanda estrutural aumentará com a mistura de 32%. Essa arbitragem pode funcionar como mecanismo de correção caso o hidratado permaneça excessivamente depreciado.
Mudanças no mix
Preços relativamente mais atrativos do açúcar ou do anidro podem estimular mudanças no mix e limitar a produção marginal de hidratado, enquanto uma melhora relativa na remuneração do etanol pode produzir o movimento contrário. Como as alterações industriais não ocorrem instantaneamente, entretanto, existe uma defasagem entre a mudança dos preços relativos e a alteração efetiva da oferta.
A projeção de R$ 2,65/litro para agosto representa, nesse sentido, um dado importante da série analisada. Depois da queda de R$ 2,8118/litro em junho para R$ 2,6778/litro em julho, a estimativa para agosto representa uma redução adicional de apenas aproximadamente 1%. A desaceleração é relevante porque contrasta com a intensidade das perdas observadas desde o início do ano. O mercado ainda não está projetando uma recuperação, mas a velocidade de deterioração parece diminuir.
Essa característica pode indicar uma aproximação de uma zona de estabilização, na qual os fundamentos baixistas começam a encontrar resistência nos próprios efeitos produzidos pelos preços baixos, principalmente por meio da melhora da competitividade, do potencial aumento do consumo e dos ajustes no mix industrial.
A confirmação dessa possível estabilização dependerá, principalmente, do comportamento dos estoques. Caso os volumes armazenados continuem crescendo mesmo com preços próximos de R$ 2,65/litro, ficará evidenciado que a demanda ainda não reage de maneira suficiente e que o excedente permanece elevado. Nesse cenário, novas reduções poderiam ser necessárias para estimular o consumo ou provocar ajustes na produção.
Em contrapartida, uma desaceleração ou redução dos estoques indicaria que os preços mais baixos estão conseguindo cumprir sua função econômica, estimulando o consumo e absorvendo parte do excesso de oferta. Dessa forma, enquanto o preço representa o resultado do desequilíbrio entre oferta e demanda, o comportamento dos estoques será determinante para identificar se esse desequilíbrio está efetivamente sendo corrigido.
O que esperar do 2º semestre
A dinâmica do segundo semestre tende, portanto, a ser diferente daquela observada durante a primeira metade da safra. Em agosto, a oferta ainda deverá exercer pressão significativa, mas a expectativa de R$ 2,65/litro indica uma possível redução da velocidade de queda. Ao mesmo tempo, a implementação dos 32% passa a atuar de maneira mais efetiva sobre a demanda de anidro, enquanto os preços baixos aumentam a competitividade do hidratado.
Em setembro, o comportamento dos estoques e das compras das distribuidoras deverá ganhar ainda mais importância, principalmente para determinar se o aumento da demanda será suficiente para absorver o produto acumulado durante os meses de maior moagem. Em outubro, a eventual redução sazonal da disponibilidade de cana poderá começar a alterar o balanço físico, embora a intensidade desse movimento dependerá do ritmo de moagem e das condições climáticas.
A série histórica deixa evidente que o mercado percorreu uma correção bastante expressiva ao longo de 2026. O preço caiu de R$ 3,71/litro em janeiro para R$ 2,6778/litro em julho, acumulando uma redução próxima de 28%. Ao mesmo tempo, julho terminou 15,79% abaixo do mesmo mês do ano anterior e 19,68% abaixo da média dos últimos cinco anos. Esses números demonstram que uma parcela significativa do excesso de oferta já está refletida nas cotações.
Porém, isso não impede novas quedas, mas significa que movimentos adicionais de baixa exigirão continuidade do crescimento da oferta, deterioração adicional da demanda ou uma combinação dos dois fatores. Quanto mais o preço se distancia da média histórica, maior também tende a ser o incentivo econômico para mudanças no comportamento dos agentes.
O principal ponto de atenção, portanto, deixa de ser apenas a magnitude da produção e passa a ser a capacidade do mercado de absorver o excedente. A produção elevada continuará sendo um fator baixista enquanto não houver crescimento proporcional da demanda, mas os preços atuais já começam a criar condições para uma resposta do consumo e para ajustes do lado da oferta.
A maior competitividade do hidratado, a demanda adicional de anidro proporcionada pelos 32% e a arbitragem entre açúcar, anidro e hidratado podem contribuir para reduzir gradualmente a pressão sobre o mercado.
Dessa forma, julho de 2026 consolida uma das fases mais pressionadas do ciclo recente do etanol hidratado, mas também aproxima o mercado de uma região na qual a própria queda dos preços começa a produzir mecanismos de sustentação. O viés permanece baixista no curto prazo, diante da elevada disponibilidade de produto e da demanda ainda cautelosa, mas a projeção de R$ 2,65/litro para agosto sugere uma desaceleração do processo de ajuste.
A confirmação de uma mudança de tendência dependerá principalmente da evolução dos estoques, da reação das distribuidoras, da competitividade do hidratado e dos efeitos efetivos da mistura de 32% sobre a demanda de anidro e sobre o mix industrial. O segundo semestre, portanto, deverá ser marcado pela transição de um mercado dominado pelo crescimento da oferta para uma disputa cada vez mais concentrada na capacidade de absorção da demanda e na velocidade de redução dos excedentes.
*Maurício Muruci é especialista em açúcar, etanol e biodiesel da Safras & Mercado, com mais de 15 anos de experiência em análises econômicas e consultoria para mercados agrícolas
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