Começa nesta segunda-feira 03.08), em Foz do Iguaçu (cerca de 640 km da capital Curitiba), no Paraná, o 34º Congresso Brasileiro da Ciência das Plantas Daninhas. O encontro vai até quinta-feira )6), e reune pesquisadores, produtores, técnicos e empresas para discutir problemas que elevam os custos e ameaçam a produtividade das lavouras brasileiras.
O congresso é organizado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pela Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas (SBCPD). Um dos principais temas do encontro será a resistência aos herbicidas, problema que ganhou força nos sistemas de produção de soja. Capim-amargoso, capim-pé-de-galinha, buva, azevém e diferentes espécies de caruru estão entre as invasoras que exigem programas de controle mais complexos.
A discussão ocorre enquanto o Brasil encerra uma safra recorde. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de soja alcançou 180,6 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, crescimento de 5,3% sobre a temporada anterior.
A área cultivada aumentou 2,7%, apoiada pelo uso de tecnologia e por condições climáticas favoráveis. Para manter esse desempenho na safra 2026/27, o produtor precisará controlar plantas daninhas que disputam água, luz e nutrientes desde o início do desenvolvimento da soja.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) alerta que a convivência sem controle com plantas invasoras pode reduzir em mais de 90% a produção de soja em situações extremas. O tamanho da perda depende da espécie, da quantidade de plantas presentes e do período em que ocorre a competição.
O prejuízo não se limita à queda de produtividade. As invasoras podem dificultar a colheita, elevar a umidade e a quantidade de impurezas nos grãos, hospedar pragas e doenças e aumentar o banco de sementes no solo.
A resistência ocorre quando plantas naturalmente capazes de sobreviver a determinado herbicida produzem sementes e ampliam sua presença na área. A aplicação repetida do mesmo produto ou de herbicidas com o mesmo mecanismo de ação acelera a seleção desses indivíduos.
O uso contínuo de glifosato teve papel importante nesse processo. A tecnologia facilitou o controle durante vários anos, mas a dependência excessiva de um único mecanismo favoreceu a seleção de populações resistentes em diferentes regiões produtoras.
Os herbicidas inibidores da enzima acetolactato sintase (ALS) enfrentam situação semelhante. Como foram utilizados repetidamente, algumas espécies deixaram de responder às aplicações ou passaram a exigir programas de manejo mais caros.
A Embrapa recomenda que o controle comece antes do plantio. Entrar com a semeadora em uma área infestada por buva, capim-amargoso ou outras plantas já desenvolvidas limita as opções e aumenta o risco de falhas durante o ciclo.
O manejo deve combinar a rotação de mecanismos de ação, culturas de cobertura, redução do banco de sementes, limpeza das máquinas e eliminação das plantas remanescentes. Estradas, carreadores, margens de lavouras e áreas próximas aos armazéns também precisam ser monitorados.
Outro recurso que ganha espaço é o herbicida de pré-emergência. Aplicado depois da semeadura e antes do nascimento das invasoras, ele forma uma camada de controle no solo e reduz a competição nas primeiras semanas da soja.
A estratégia não substitui as aplicações posteriores, mas pode diminuir a quantidade e o tamanho das plantas que chegarão à fase de pós-emergência. Isso amplia a janela de trabalho e reduz a pressão sobre os herbicidas utilizados mais tarde.
Entre as tecnologias que serão apresentadas durante o congresso está o Cervino Gold, da Sipcam Nichino Brasil. O produto reúne clomazona e flumioxazina em uma mistura pronta para aplicação em pré-emergência da soja.
O herbicida possui registro nº 58525 no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A titular do registro é a Oxon Brasil Defensivos Agrícolas. A formulação contém 500 gramas de clomazona e 31,25 gramas de flumioxazina por litro.
Segundo a Sipcam Nichino, é a primeira mistura pronta desses dois ingredientes ativos comercializada no Brasil. O produto foi desenvolvido para controlar plantas de folhas largas e estreitas, inclusive espécies consideradas de difícil manejo.
Os alvos são o capim-pé-de-galinha, capim-amargoso, braquiária, trapoeraba, corda-de-viola, erva-quente e caruru. Os testes foram realizados ao longo de três safras em diferentes regiões produtoras.
A combinação de dois mecanismos de ação amplia as opções disponíveis, mas não elimina o risco de resistência. Para que a estratégia seja efetiva, a invasora presente no talhão precisa ser sensível aos dois ingredientes.
Se apenas um dos componentes controlar determinada espécie, a pressão de seleção continuará concentrada sobre o ingrediente que permanece eficiente. O uso repetido da mesma mistura, sem rotação, também pode reduzir sua vida útil.
O resultado dos herbicidas de pré-emergência depende ainda das condições do solo. Umidade, textura, quantidade de matéria orgânica, volume de palha e ocorrência de chuva depois da pulverização influenciam a ativação e a distribuição do produto.
A falta de umidade pode reduzir o controle. Chuvas intensas, por outro lado, podem deslocar os ingredientes no perfil do solo e aumentar o risco de danos à cultura, principalmente em áreas arenosas. Dose, momento de aplicação e recomendação para cada tipo de solo precisam seguir a bula e o receituário agronômico.
No registro consultado, o Cervino Gold aparece na categoria toxicológica 5, definida como produto improvável de causar dano agudo. Na classificação ambiental, pertence à classe 2, correspondente a produto muito perigoso ao meio ambiente. O enquadramento exige cuidados para evitar deriva, contaminação da água e exposição dos trabalhadores.
A apresentação de novas tecnologias ocorre em um momento no qual o produtor precisa analisar com mais cuidado o custo de cada aplicação. O percentual de controle divulgado em ensaios comerciais não garante o mesmo resultado em todas as propriedades.
Antes de definir o programa, é necessário identificar as espécies existentes no talhão, conhecer o histórico de produtos utilizados e verificar se há suspeita de resistência. Também é importante acompanhar os escapes e impedir que as plantas sobreviventes produzam sementes.
O congresso terá palestras e trabalhos sobre biologia de plantas daninhas, resistência, tecnologia de aplicação, controle químico e sistemas integrados de manejo. A programação começa com o credenciamento e a abertura oficial nesta segunda-feira e prossegue até quinta-feira.
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