AGRICULTURA
Novo guia da Embrapa traz práticas de manejo para melhorar a saúde de caprinos
Published
5 meses agoon
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Da Redação

Facilitar o manejo e controlar enfermidades que podem colocar em risco a saúde de caprinos leiteiros, a produtividade de rebanhos e a qualidade dos produtos. Esse é o objetivo do novo “Guia para elaboração de plano de biosseguridade no controle e prevenção de doenças infecciosas de caprinos leiteiros no Nordeste”, da Embrapa.
A elaboração do documento é resultado de uma trajetória de anos de pesquisa em doenças infecciosas na Embrapa e também uma demanda de criadores de caprinos leiteiros que foi enfatizada durante atividades de campo do Projeto Dom Hélder Câmara (PDHC), entre 2019 e 2023, na região da divisa entre os estados da Paraíba e Pernambuco.
Segundo o pesquisador da área de Sanidade Animal da Embrapa Caprinos e Ovinos (CE) Selmo Alves, a interação com os produtores mostrou alguns aspectos que podem ser melhorados com orientações específicas de manejo e implementadas por meio de planos, em conjunto entre criadores, extensionistas e agentes públicos.
“Nós verificamos a necessidade de uma orientação para biosseguridade, envolvendo questões como quarentena e outros cuidados na entrada e trocas de animais nos rebanhos, para que tudo seja feito com melhor critério sanitário”, ressalta Alves, um dos autores do Guia.
“Vimos uma ânsia de informações muito grande, por parte de técnicos e de produtores, sobre como ter um rebanho mais saudável, aumentando produção e qualidade”, acrescenta Rizaldo Pinheiro, também pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos e outro autor da publicação.
De vacina a resíduos da produção
No Guia, estão recomendações de protocolos para quarentena e monitoramento de animais, vacinação, higienização de instalações, fornecimento de alimentação e o manejo adequado de animais enfermos e de resíduos da produção.
A publicação traz também um anexo com um check-list que permite aos usuários verificar como está o cumprimento de orientações de manejo sanitário nas propriedades, ajudando a verificar aspectos para melhoria que podem prevenir enfermidades como a Agalaxia Contagiosa, Artrite Encefalite Caprina, Clamidiose, Paratuberculose e Toxoplasmose.
A ideia da publicação com informações acessíveis ao público entusiasma produtores rurais como Geneci Lemos, de Coxixola, na região do Cariri Paraibano. “É excelente, algo essencial para fazermos um controle e acompanhar o rebanho”, ressalta.
O criador, que há anos é parceiro da Embrapa em projetos de pesquisa e transferência de tecnologia, destaca que a troca de informações sobre biosseguridade para seu rebanho já trouxe autonomia e melhorias na rotina da atividade.
“Com o aprendizado dos cursos, dos dias de campo, hoje eu sei coletar fezes de uma cabra para fazer OPG (exame de contagem de ovos de larvas em fezes de animais que permite mensurar grau de infecção por verminose), dou remédios se for preciso, essas atividades mais básicas. Com essas informações, já consigo evitar vários prejuízo”, frisa Geneci.
Para o médico-veterinário Flávio Mergulhão, que integrou as ações da Embrapa no Cariri Paraibano como bolsista do PDHC e hoje atua na região pelo projeto InovaCapri, o Guia traz a vantagem de ser referência para um roteiro de procedimentos sanitários que podem ser monitorados por técnicos, consultores e produtores rurais.
“Um monitoramento analítico identificaria pontos estruturais da propriedade e falhas no manejo que auxiliam na disseminação das adversidades sanitárias. Dessa forma, é possível direcionar ações preventivas e de tratamento das enfermidades”, diz Mergulhão.
Evitar prejuízos
Além do potencial de promover bem-estar aos rebanhos, a elaboração do Guia também tem como objetivo evitar que caprinocultores tenham prejuízos com impactos de doenças na qualidade do leite e, consequentemente, perdas de mercados consumidores.
Alves ressalta que a contaminação de doenças infecciosas pode tornar o leite inadequado para o processamento e para que seja comercializado para mercados do Brasil e do exterior.
“Se houver oportunidade de um mercado aberto para o leite caprino brasileiro, a primeira providência que outro país adota é analisar, em concordância com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que tipos de doenças podem contaminar os rebanhos locais. Essa questão de mercado é muito delicada”, frisa o pesquisador.
Saúde Única e prevenção de zoonoses
A preocupação em disseminar boas práticas de manejo para controle e prevenção de doenças na caprinocultura leiteira também contempla uma apreensão mais abrangente, relacionada à estratégia de Saúde Única. Algumas enfermidades que acometem os animais são zoonoses, capazes, portanto, de infectar pessoas e trazer riscos à saúde humana.
“Não podemos estudar uma doença de forma estanque, só em uma espécie. No período das pesquisas no PDHC, vimos relatos de que vários produtores rurais tiveram problema com a toxoplasmose, com problemas neurológicos, oculares e até relacionados a abortos. É uma doença problemática e hoje disseminada em todo o Nordeste”, alerta Pinheiro.
Um exemplo dessa abordagem integrada voltada para a saúde única aconteceu durante a execução das ações do PDHC, quando a prevalência elevada de toxoplasmose em rebanhos da região chamou a atenção da equipe do projeto, que convidou secretários de saúde dos municípios para uma reunião, em 2021, que discutiu os riscos do contágio para a saúde humana.
“Dessa forma, os secretários puderam correlacionar a doença com alguns casos clínicos em humanos, como problemas de visão e crianças infectadas por agentes teratogênicos (que atuam durante a gravidez e podem ocasionar problemas como malformações ou até mesmo mortes de bebês). A toxoplasmose pode ser transmitida via caprinos leiteiros, por meio do consumo de leite cru ou da carne sem tratamento satisfatório”, detalha Mergulhão.
Para Pinheiro, essa estratégia de foco em saúde única também é uma vantagem do caráter participativo que faz parte das orientações para a construção dos planos de biosseguridade. Ao reunir produtores, técnicos e profissionais de forma multidisciplinar em sua elaboração, essas ações podem identificar problemas e soluções de forma mais abrangente e completa.
“Muitas vezes um médico vai para o campo, fica centrado na ocorrência de doenças humanas e algumas zoonoses podem ser negligenciadas. A partir de um alerta sobre a prevalência do problema, isso pode facilitar diagnóstico, tratamento e tempo de resposta”, diz.
Aplicação e rotinas de manejo
Ao disponibilizar orientações a respeito do manejo sanitário, a ideia do Guia é trazer a agricultores, extensionistas e gestores públicos informações que sirvam como referência para a saúde animal e a saúde pública.
Uma das ferramentas presentes na publicação é um formulário de diagnóstico para que as propriedades rurais possam monitorar o cumprimento de normas sanitárias.
Segundo Alves, o formulário atende a um contexto da caprinocultura leiteira, atividade predominantemente composta por agricultores familiares, que necessita de informação sobre cuidados com aspectos como movimentação de animais que podem exigir medidas de isolamento e quarentena.
“Na propriedade pode acontecer compras de animais, trocas, participações em feiras e exposições em que é preciso prevenir as possibilidades de disseminação de doenças. E é importante que o técnico ou o produtor tenha um olhar para qualquer mudança de comportamento no rebanho: um animal que não chega na instalação, que fica isolado, já é possibilidade de estar com algum sintoma”, exemplifica Alves.
O questionário presente no formulário permite que o usuário possa observar:
- Questões relacionadas às instalações e equipamentos;
- Condições de alimentos e água;
- Protocolos para entrada de pessoas e veículos na propriedade; e
- Descarte de resíduos de produção.
“Acredito que esse Guia vai auxiliar muito técnicos e produtores na obtenção de produtos melhores, além de maior produção e satisfação, impactando diretamente o bem-estar do animal e das famílias”, observa Pinheiro.
Além de Alves e Pinheiro, o Guia também conta com a coautoria de Alice Andrioli (pesquisadora da Embrapa Caprinos e Ovinos) e das zootecnistas Zenaide Olímpio e Ana Milena Lima, que atuaram como bolsistas no PDHC.
Principais recomendações para biosseguridade
A atenção para controle e prevenção de doenças infecciosas requer atenção para as frentes da biosseguridade externa (controle prévio para evitar introdução de agentes causadores de doenças na propriedade) e interna (controle dos fatores dentro da propriedade rural). As principais medidas recomendadas no Guia são:
1) Biosseguridade externa
- Quarentena e monitoramento: período de isolamento para animais recém-adquiridos, com monitoramento da saúde para detecção precoce de enfermidades;
- Controle de entrada de animais e de materiais genéticos: exames clínicos, diagnósticos de enfermidades e desinfecção;
- Cercas externas: para limitar o acesso de animais domésticos de vizinhos e animais selvagens, que podem ser portadores de doenças;
- Controle de visitantes: medidas rigorosas para visitantes e técnicos, como o
uso de vestimentas e calçados adequados; - Limpeza de veículos e equipamentos: devem ser devidamente limpos e desinfetados antes de entrar na propriedade, para evitar a disseminação de patógenos;
- Pedilúvios (recipientes que contêm solução para desinfetar os cascos dos
animais): Instalação de pedilúvios na entrada da propriedade para a desinfecção de calçados e pneus.
2) Biosseguridade Interna
- Separação por categoria: manter animais separados por faixa etária ou categoria produtiva para reduzir o risco de transmissão de doenças entre grupos;
- Isolamento de animais doentes: isolar rapidamente animais com sintomas, tratando-os em áreas separadas para evitar que a doença se espalhe pelo restante do rebanho;
- Manejo sanitário: cumprir rigorosamente os planos de vacinação e de vermifugação, orientados por médicos-veterinários;
- Higiene de alimentos: fornecer água potável limpa e alimentação balanceada, armazenando rações em bombonas plásticas fechadas para evitar contaminação por roedores e insetos;
- Controle de pragas: implementar o controle integrado de roedores, insetos e outras pragas dentro das instalações;
- Destino adequado de resíduos: descartar restos de placenta, fetos abortados e animais mortos, utilizando locais apropriados como composteiras ou áreas de descarte que sigam normas sanitárias;
- Uso de esterqueiras: armazenar o esterco em local isolado e adequado para garantir sua decomposição controlada e evitar a contaminação ambiental;
- Limpeza das instalações: manter um cronograma de limpeza e desinfecção de comedouros, bebedouros e equipamentos de ordenha.
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